sábado, 14 de janeiro de 2017

"Feliz por Tudo, por Nada e Platão", crônica de João Soares Neto


Vou ficar contente por estar vivo, por morar em um país em que não há terremotos e avalanches de neve, as novelas de TV são picantes e coloridas, há bons jogos de futebol onde as torcidas são animadas, mas corteses. Vou usar o grande tempo em que passo dirigindo para ouvir as músicas pacientemente escolhidas: Tiririca, Wesley Safadão e duplas sertanejas.
Tampouco, reclamarei se me oferecerem água “mineral” a R$1,00 a garrafa batendo no vidro do meu carro. Tirarei fotos dos comedores de fogo, dos esquálidos meninos acrobatas com roupas esfarrapadas e dos afáveis “flanelinhas” sempre risonhos, com suas bisnagas e apetrechos.
Escolhi “A Voz do Brasil” como programa de rádio favorito ao começo de cada noite. Aos domingos, optarei pelo Faustão, tão bem vestido, educado e legítimo representante do humor cordial. Ouvirei prédicas em emissoras pentecostais e as compararei com as suas congêneres católicas.
Anotarei todas as contas bancárias para onde deverei mandar dízimos e comprarei terços, medalhas e imagens pela internet. Estou pensando seriamente em fazer uma nova excursão à Terra Santa, quando arriscarei fazer as pazes entre alguns judeus e palestinos.
Na volta, pararei em Roma onde há um curso sobre “Desburocratização do Vaticano”. Gravarei esses ensinamentos e repassarei para alguns coachings, exímios resolvedores de problemas empresariais, familiares e pessoais.
Pagarei, sem reclamar, os juros altos do meu cartão de crédito e ficarei feliz em colaborar para o desenvolvimento do sistema bancário brasileiro, tão solidário com o povo sofrido.
Ouvirei palestras de ex-diretores do Banco Central e me encantarei em ler artigos de ex-detentores de cargos públicos, sempre disponíveis para solucionar os fáceis problemas que encontraram e não resolveram.
Acreditarei em todas as reformas propostas e aplaudirei os que, aos domingos, tomam banho de sol na avenida Paulista. Uns de bicicleta, outros empurrando carrinhos de bebês que não choram e até aquele ex-bancário gorducho sentado na velha espreguiçadeira deixada pela tia setentona abrigada em excelente casa de repouso para idosos.

Nada de falar de Gramsci, Marx, Deleuse e Guattari, dou a palavra a Platão na República, quando diz: “aquele que verdadeiramente gosta de saber, tem uma disposição natural para lutar pelo Ser, e não se detém em cada um dos aspectos que existem na aparência, mas prossegue sem desfalecer nem desistir de sua paixão, antes de atingir a natureza de cada Ser em si”. 
Falou!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

HOJE (12/01): Roda de Conversa: “A Encantadora Alma das Ruas”


HOJE: Roda de Conversa: “A Encantadora Alma das Ruas”
Data e Horário: 12 de janeiro de 2017 (quinta-feira), às 14h
Local: Biblioteca Pública (Espaço Estação)
GRATUITA e aberta ao público.
Saiba Mais:
Jorge Gouveia, em situação de rua, criador e agitador do Movimento Loucos por Praças, Parques, RUAS e Cultura e do Coletivo Cultural Poeta Mário Gomes, coordena a roda de conversa "A Encantadora Alma das RUAS" (título do livro de João do Rio, famoso jornalista e membro da ABL), com a presença de estudantes do ensino médio da Escola Prof.  Plácido Aderaldo Castelo, do Conjunto Ceará, e de moradores de RUA,  integrantes do Movimento e do Coletivo Cultural Poeta Mário Gomes. A iniciativa foi do prof. Marcos Vinicius.
Na ocasião, o Movimento e o Coletivo lançarão mais dois projetos:
1- Biblioteca "Peregrina", ou seja, itinerante, em um carrinho de catador de lixo.

2- O jornal dos moradores de rua, denominado “A Sopa, o Pão e o Papelão”.

sábado, 7 de janeiro de 2017

"Carta Cansada", de Raymundo Netto para O POVO


Veio-lhe a carta. Poderia ser qualquer uma, mas não, esta era cansada. Exaurida de lágrimas, qualquer resto delas, de fadiga ou de tédio, palavras em desalinho, opressas a batidas quase surdas de um coração ferido.
Ele, nem mesmo para si guardava a dúvida: de nada sabia do amor. Numa arrazoada assertiva o teria como um horizonte distante e inalcançável, como mentira, eternamente paralelo à vida, pelo menos a dele.
Não por isso negasse dias ter pela remetente sacrificado a palavra inda quente entre os dentes, nem sabia o porquê. Seria de mais grado a ambos deixar-se vomitar o “eu te amo”. Mas qual. Fitava-lhe os olhos de âmbar e o sorriso de menina.  Guardava na polpa dos dedos aquele desejo, quase em súplices joelhos, em forma de impressões e ardor da pele dourada. Buscava no lóbulo da orelha sob o cabelos furiosos o corpo que se expandia num abraço de acolhê-lo todo e inteiro – carne, alma e algo mais indescrito – em noites intermináveis de sempre ter um capítulo de fim. Agarrava-se aos cabelos como a tomá-la para si, para dentro de si, beijando-lhes os olhos para não cair de suas lembranças.
No escuro, sua voz ainda corria a curva dos ouvidos: “Eu tentei... ‘Morri no ano passado, mas nesse ano eu não morro’. Talvez eu tenha entendido ter chegado a hora de não querer mais entender. Seja feliz e adeus.”
“Adeus”, repetia, desbastando em retalhos as memórias que lhe vinham uma a uma, atravessando o peito e saltando do trampolim sobre as águas de malogrados esquecimentos.
Noutros dias, ao beijar outra mulher, sua boca estranhou o incômodo da boca distante. Seus dedos, como se perdidos no chão, procuravam encontrar no corpo alheio as mesmas e aquelas impressões e ardores que repousavam à pele dourada. Entretanto, nada encontraram, volvendo-se a noite em escura e desértica. A sua ausência materializou-se e desabou em chuva, a revelar no espelho que o seu pior castigo nem era ser ele mesmo, mas viver sem o perigo daquele abraço.
Do vizinho, uma radiola arranhava em long-play antigo: “entre os defeitos que tenho um é gostar de você.”
“Conte-me uma história...”, indicava no silêncio delicado, enquanto na fúria dos azuis do luar ela despedia-se num abraço calcado quase em morte, em solidariedade de vazios e de saudades, num frouxo rompante:
“Eu te amei, eu te amo, não te amarei nunca mais!”


sábado, 31 de dezembro de 2016

"2017: Ano-Novo de Novo", de Raymundo Netto



Meus amigos(as), leitores(as), conhecidos(as), colegas e gentes em geral da calçada digital deste feicebuquioceano.
2016 se despede pela compulsória e abre as portas para um inexperiente 2017. Ele chega, como toda criança, com promessas tão belas que de jamais poder cumprir – o que não deixa de ser uma grande promessa.
Decerto, somos meninos e meninas crescidos, mesmo quando nossa vida é apenas uma agulha dispensável nesse palheiro de controversas atitudes e discursos retóricos, ensaiados e repetidos todos os anos, todos os anos, todososanos.
Aprendi: a passagem do Ano-Novo é apenas uma vírgula no calendário. E, como todas as vírgulas, umas incompreendidas.
Alguns abusam de seu uso, enquanto outros as ignoram, no mesmo instante que aqueles, entre os quais me incluo, por não saber o que fazer com elas, têm a ciência de que, na dúvida, melhor esquecê-las.
Esqueço assim que essa noite é diferente, pois não é, mesmo com a faixa impensável colada no peito. Logo mais o céu será tarjado em cores de apocalipse, num colorido de festa popular, paga em troca de altos tributos e ao som de música de qualidade magérrima. Sim, são fogos do bem, felizmente, quando poderiam ser fogos em Aleppo, destruindo esperanças e vidas.
Comemoro, então, ser testemunha do hoje, ainda por aqui, na esperança caduca de poder abrir a minha janela amanhã. Farei o meu possível. Tenho tanto para fazer amanhã...
Em minha cabeça, juro que nem sei, a descrença fora arrebatada por planos e ideias de futuro glorioso, correndo junto aos ponteiros do relógio. Num outro instante, senti falta de muita gente, mas todos de uma só vez, democraticamente, sem hierarquias, hegemonias ou pretensões. Gente querida e saudosa. Gente que faz falta e que, de uma forma ou de outra, figura – às vezes protagoniza – a minha história.
Tive a felicidade de viver muita coisa, de errar muito – e acertar às vezes –, de não estar em dia com minha idade. Olho para o mundo em minha volta e percebo a finitude de tudo, menos dos sentimentos, pelo menos daqueles verdadeiros, mais sólidos do que aquelas promessas.
No exercício de perder, assisti a algumas perdas irreparáveis. Tenho saudades que me chegam a doer no fundo dos olhos, mas que, como as águas do Velho Chico, não chegam. Não as digo aqui, porque não há transcrição possível.
Mas apesar de tudo, a esperança, como aquela bactéria incômoda, não me deixa e provoca todo tipo de alucinação. Viver, viver... até quando? Pouco importa. A esperança está ali, do lado de fora da minha janela. E eu, debruçado no seu peitoril, esqueço que ouço a mulher que grita “Hoje a farsa vai acabar” e curto o balançar das folhas distantes a anunciar, como ventríloquo, que o que é bom está para começar agora...
Agora, faz-se a hora, e temos a chance de tentar mais uma vez. É só isso. Mais uma vez. Tentar! Que venha mais uma nova manhã... e que seja leve.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

"A Luneta Mágica", de Raymundo Netto


Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), médico, escritor, dramaturgo e jornalista carioca, famoso autor de A Moreninha, obra que em 1844 traçou a estreia do romance nacional brasileiro, escreveu em 1869 (século XIX) A Luneta Mágica, menos conhecida do que a primeira, mas cabendo aqui sobre ela uma boa “matutada”.
A obra tem como narrador e personagem central Simplício, que inicia: “Chamo-me Simplício e tenho condições naturais ainda mais tristes do que o meu nome. Nasci sob a influência de uma estrela maligna, nasci marcado com o selo do infortúnio. Sou míope; pior do que isso, duplamente míope, física e moralmente.”
De fato, Simplício não enxergava a um palmo do nariz (miopia física), o que não permitia que visse imagens e aparências, ou seja, não teria condições de “julgar pelas aparências”. E, sabe-se lá, devido a isso ou à coisa nenhuma, também não conseguia associar ideias (miopia moral), o “Lé com o cré”, como dizem na boa e colorida linguagem do cotidiano, dando a impressão de ser um parvo, um bobo, não ter opinião sobre nada, absolutamente. Daí, seu maior sonho: poder ver as coisas como elas realmente eram – como se fosse isso possível...
Aparentemente – irônico isso – lhe bastaria um par de óculos. Como tinha recursos, não seria problema, mas já havia experimentado vários e nada. Foi quando lhe apresentaram um mago Armênio, residente na rua do Hospício, que se dizia com o poder de lhe oferecer uma luneta mágica –entendendo que a “luneta” a que se refere o livro é um monóculo – que deveria ser usada apenas durante três minutos, advertência do mago, pois a partir de então, seu possuidor passaria a ter a “visão do mal”, ou seja, ver o mal de todas as coisas e pessoas. E, com mais de 13 minutos, ele teria também o poder de enxergar o futuro e, então, a luneta se despedaçaria. Huuummm.
Foi quando Simplício, como é absolutamente humano e imperfeito, desobedece a ordem de não ultrapassar os três minutos e descobre então toda a maldade e rudeza de um mundo, despertando o seu espírito de sonolenta inocência.
Num segundo momento, recebe outra luneta, com os mesmos atributos, só que, ao invés de ter a “visão do mal”, tem a “visão do bem”, passando a ver apenas o lado bom de tudo e de todos.
Não irei oferecer aqui mais spoilers. Já basta. Que os interessados leiam Macedo, ele merece. Comecemos então a pensar nessa simplícica visão do bem e do mal.
Ora, Macedo, em um momento de seu livro, como costume, filosofa:
“A exageração degenera os sentimentos, desvirtua os fatos, desfigura a verdade. Exagerar é mentir. No mundo há o bem e o mal, como há na vida o prazer e a dor. Mas o bem é o bem, o mal é o mal como eles são e não podem deixar de ser para a humanidade que é imperfeita: perfeito bem, absoluto mal não há para ela. [...] homens absolutamente maus ou absolutamente bons não são possíveis, nem se compreendem. Estudar o mundo e os homens, observando-os pela enfezada lente do pessimismo é tão perigoso e falaz como estudá-los observando-os pelo imprudente prisma do otimismo.”
O povo também brasileiro, tão incipiente de leitura e de maquinário intelectual, sem opiniões ou julgamentos próprios – pelo menos os mais elaborados –, como Simplício, tão facilmente conduzido por aquilo que aparentemente se vê, ou pelo que as suas lunetas televisivas e/ou midiáticas apresentam num alardeado pessimismo ou otimismo, conforme interesses e objetivos de quem as dominam [refiro-me, prestem atenção, às lunetas], parece perdido, numa caravana de ódio e de desespero, precipitado como os bárbaros nos tempos mais remotos, movido por instinto de sobrevivência, raivoso e aguerrido numa batalha gratuita em campo aberto – porém com protetor solar de farmácia –, numa disseminação de inverdades, tomado pelo show pirotécnico do grande coliseu judiciário, embasbacado com o espetáculo da corrupção, como se, pela primeira vez, lhe fosse desvendada a maldade humana. Haja Cabral... Quanta inocência.
O povo noveleiro, sempre imerso na sua ridícula vida individual, com a barriga cheia de si e dos seus, na busca dos penduricalhos materiais, de repente se vê convocado pelos titãs – os manda-chuvas e pais adotivos da maracutaia – que sempre lhe comandaram a vida. E ele, povo ignaro, de então, acha-se militante, coloca a camisa da corrupta CBF, representando o que chama de sua pátria, “ó mãe tão esquecida”, mas sem reconhecer-lhe a maternidade, a agride com verborragia desnecessária, contraditória, ensandecida, nunca que preocupado com seu país, com os famintos ou desassistidos, mas com o calo que lhe é apertado por aquele Nike comprado no shopping dos brilhantes.
Ou aquele povo, aquele que se insere nas ditas lutas sociais, que grita, berra, anda de alpercatas – porque esconde os sapatos italianos para outras ocasiões – mas que na verdade tem pretensões de vagas e cargos no governo, que defende a SUA camisa, o SEU partido e não o seu país e/ou aqueles filhos mais explorados ou excluídos. Aquele que se diz – e às vezes acredita mesmo – “politizado”, mas na verdade é apequenado pelo seu ideal individual de crescimento ou parasitismo político, tal qual aqueles que ali estão desembarcando do atual governo, feito ratos, sem merecer os votos que receberam nem as calças que vestem.
São iguais. Ambos os “povos”. Usando as lunetas que lhes deram, veem o bem e/ou o mal a seu bel prazer, como lhe convém. Julgando-os como absolutos, criando uma batalha sem sentido com palavras bonitas como “democracia”, que poucos sabem o que representa a não ser o seu querer único e indivisível. Seu egoísmo pátrio de torcida organizada.
Resta-nos saber que entre um povo e o outro existem pessoas dignas, honradas, críticas, sérias. Pessoas com princípios que não precisam ou não vivem para uma coisa ou outra, mas têm a noção do outro, da divisão, são sensíveis e defendem o seu país por entenderem o que é chão, semeadura e colheita. São pessoas bem formadas, não necessariamente com diplomas ou letradas, com caráter, curiosas e sedentas da descoberta da liberdade, da fraternidade e da união.
A guerra que assistimos hoje é insana e nós a criamos durante anos, como uma doença que silenciosamente nos toma de repente, fruto de um movimento histórico e social de alienação, de capitalismo predador –como se existisse outro tipo –, ganância, ambição, de adoração e manutenção daquilo que nos consome, que consumimos e que desperdiçamos, numa mentira não tão dura até ser contada para nós mesmos.
Quanto de mal ou de bem trazemos conosco? Quem é bom ou ruim nessa história?
A luneta do bom senso é a melhor, mas pertence a poucos. Cuidado, meus amigos e amigas: “Exagerar é mentir!”
(*) Publicado originalmente no blog "Matutando o Brasil", em 2 de abril de 2016.


"Um Brasil de Caranguejos", de Raymundo Netto


Você que inventou esse estado e inventou de inventar
toda a escuridão. Você que inventou o pecado
esqueceu-se de inventar o perdão
Apesar de você, amanhã há de ser
outro dia!
(Chico Buarque)

O Ministério da Cultura voltou! O presidente interino – não por bondade nem por entender a necessidade estratégica da cultura para o desenvolvimento do país, o que é lastimável – voltou atrás e decidiu manter o Ministério.
Para quem sabe o que é cultura – e não estamos falando de mero entretenimento – e percebe o que a diversidade cultural de um país de proporção continental e miscigenado como o nosso representa enquanto riqueza – quem pensa que riqueza é apenas um tríplex com piscina e um Ferrari na garagem, não sabe, mas é pobre, pobre, pauvre de marré deci – o anúncio da extinção desse Ministério, que não já não atuava em toda a sua plenitude – nunca foi prioridade de governo – e que levaria anos para alcançar seu objetivo, é de uma gravidade extremosa e reveladora.
Vivemos num país no qual o seu conceito ainda é muito mal interpretado, menos ainda interiorizado como pertença e não é abraçado por muitos, além de que a sua ausência favorece aos interesses dos doutores da elite burra e gananciosa, afinal: um povo sem cultura é gado que em vez de chocalho bate panelas e desgasta o sofá no horário nobre de TV.
O tecnicismo de alguns governos que veem apenas a riqueza material como fonte de sobrevivência da nação nos indica o nível de miséria cultural de seu povo. E essa miséria cultural atrai a outra, de agarro e abraços com a injustiça e a desigualdade social. Claro que quem tem uma pontinha de segurança, os favorecidos historicamente e muitas vezes com poucos méritos de conquista, principalmente os homens, os brancos e os de classe alta e média, não se importam com questões de cultura e muito menos com a defesa de garantias sociais. Não é com eles! Daí, tremem de raiva ao ouvir falar de bolsa família, lei de cotas – que beneficia os negros e aqueles em situação de vulnerabilidade social –, favorecimento de casas populares, questões do aborto, o direito de transexuais e travestis em usarem um nome social (direito ora ameaçado por projeto (des)encabeçado por parlamentáveis dos partidos do atraso, como o PSDB, PRB, PV, PR, PHS, PSC, PROS, DEM e PSB, sempre eles), do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos – afinal, vociferam: “lugar de mulher bela e recatada (recalcada?) é servindo, por obrigação, ao macho em seu lar (cárcere privado)”; “negro não é raça” (e o branco é o quê?); e “direitos humanos é coisa de comunista (mas fui mal aluno em sociologia)” – entre outros benefícios que rondam a periferia de suas vidas e que só incomodam quando lhe chegam na esquina e gritam: “Fortaleza – a nossa – apavorada!”
Junte-se a esses atrasados, a bancada cruel, ignorante e preconceituosa mantida pelos evangélicos, e não pelos evangelhos (que significam “Boas Novas”), e que usa o nome de Deus e da família – recusam as novas configurações familiares –  para patrocinar a tortura e a opressão humana, o machismo e a domesticação feminina, a castração da sexualidade, a visão da arte como vagabundagem (só entendem de dinheiro, que é o negócio deles), e a expropriação livre daqueles que já nada tem em troca da vacina da resignação e da promessa de um paraíso de fundo de rede.
Cadê a manifestação dessa turma diante da atualíssima crise no sistema público de educação? O que há na cabeça desses infelizes, egoístas e infiéis à revolução cristã? Ora, Jesus não nasceu e defendeu os pobres, as minorias, os excluídos, com quem conviveu e dividia pães e peixes até a sua execução ser encomendada pelo poder e pela bancada sacerdotal da época?
A Educação e a Cultura, as maiores e mais duráveis conquistas de um povo, os verdadeiros instrumentos do progresso e do desenvolvimento, da harmonia e da autoestima de uma nação, sempre foram colocadas em segundo ou terceiro plano, e só lembradas durante campanhas eleitorais.
Há de se chegar a hora de ser abominosa e inaceitável toda a hipocrisia desses fariseus que manipulam as leis e as manobram em sacrifício do povo e em benefício próprio. Há de chegar a hora do povo despertar desse sono profundo e entender que somos um todo e que este país só será forte e respeitado pelo Mundo quando houver transformação social. Que esse dia venha pelas mãos do nosso povo e não por aventureiros. É querer demais? 
 #ELEIÇÕESGERAISJÁ  

(*) Texto publicado originalmente no blog "Matutando o Brasil", em 22 de maio de 2016.


"Carta a Capistrano de Abreu: de 1916 a 2016". de João Soares Neto


O historiador cearense João Capistrano de Abreu foi – e é – referência no Brasil e até no exterior. Sisudo, língua solta para falar a verdade, amigos conservados, pleno de problemas de saúde, apertos familiares e refundador da História e da Historiografia do Brasil. Gênio.
Sou desde há muito, leitor de Capistrano e de suas famosas cartas. Por exemplo: em 16 de agosto de 1916, saindo do sério, ele escreve à família Assis Brasil: “O grande acontecimento deste aldeão é o foot-ball. O Brasil só tem pela frente o Uruguai. Vencerá? Há para isto um estimulante forte. Um Guinle, creio que Arnaldo, cabo das sociedades desportivas, disseram-me, tomará para si a dívida de mil contos de um empréstimo feito no Banco do Brasil, se o triunfo nos assegurar o campeonato sul-americano. Nunca assisti a uma partida, não posso fazer ideia de como é, e os termos técnicos soam-me aos ouvidos como a mais atravessada das gírias; mas, enquanto tudo for independente de socorros federais ou municipais, contará com minhas simpatias incondicionais o jogo do foot-ball” (vol.3, pg.70, MEC).
Como você sabe, mestre Capistrano, o Brasil perdeu. O vencedor foi o Uruguai. O que me levou a essa citação foi a sua parte final: “...enquanto tudo for independente de socorros federais ou municipais, contará com as minhas simpatias...”.
Caro mestre Capistrano, essa mania de socorros federais é uma praga e uma das causas destes problemas vivenciados, exato um século depois de sua carta de 1916.
 O Brasil tem jogado dinheiro fora, desde o Império e todas as repúblicas (velha, nova etc.). Está pleno de dívidas e de incertezas.  O país, por suas empresas, patrocina times de futebol e de tantos esportes. Seria cediço descrever.
Estamos entrando no sexto ano de seca no seu e no meu Ceará. Enquanto isso, o Brasil desmanchou estádios prontos e em funcionamento, tornando-os novos de novo. Para se adequar aos “padrões” da Fifa, a empresa multinacional a fazer eventos mundo afora, metida em encrenca com polícias internacionais. Tal qual 1916, o Brasil perdeu a Copa.
Depois, outros devaneios, aí no Rio de Janeiro, terra escolhida por você para morar a maior parte de sua vida. No começo do século XX, lembra você, mexeram com o centro do Rio.
Era necessário seguir as modernidade de Paris e de Washington, cidades desconhecidas, por ter optado nunca sair do Brasil. Sabe, aquela região Central do Brasil, Candelária e avenida Rio Branco, Passeio Público, ficou bonita. A propósito, mestre Capistrano, lembra-se da praça Mauá? Cais da atracação do navio “Guará”, que o levou ao Rio, por recomendação de José de Alencar. Era dia nublado e os seus olhos míopes, embaçados. Recorda?
Limpe, agora, as grossas lentes de seus óculos e, se o seu espírito puder se transportar, veja: quase tudo foi derrubado e surgiu um “Museu do Amanhã”, pomposo, caríssimo e sequer registra a sua presença naqueles pagos. Mas não ficou só nisso, mexeram na área da Marinha, hoje um grande bulevar.
Criaram arenas e vilas novas. Para quê? Uma Olimpíada com jogos neste 2016, tal como na Grécia antiga, como sabe. Pois bem, o Rio de Janeiro ficou tão bonito quanto endividado. Não há dinheiro para pagar os milhares de funcionários públicos.  E, como em 1916, Brasil não brilhou como devia.
Estou terminando, não sem dar notícia do hoje. O presidente atual é Michel Temer, 75 anos, paulista, filho de libaneses, advogado e político, desde sempre. Discursa e fala como tribuno, usando colocações pronominais. Está em sufoco grande. Se houvesse espaço, diria mais coisas. Hoje, peço apenas que o nosso país tome tento e supere as dificuldades. 2017 está na soleira.
Ia esquecendo, sua Columinjuba possui uma academia de letras. Fui convidado e lá palestrei sobre o João mais admirável de Maranguape.
O Ceará está melhor que o país. Aguarda, ansioso, a transposição das águas do Rio São Francisco, obra atrasada. Tais como as das sua época.  
Respeito e admiração

De um outro João.


domingo, 25 de dezembro de 2016

"É Natal?", de João Soares Neto


O que caracteriza o Natal? A sociabilidade aumentada? A mudança do estado de espírito? Mais proximidade com a família? Ouvir e ver os anseios encomendados nas televisões? Acreditar em saúde melhor? A intenção, mesmo passageira, de servir, ajudar o próximo? A cultura do nosso dia a dia? A esperança de fazer algo novo, empreender?  E como ficam as finanças no balanço já em curso?  Empatam, pelo menos?
Há um pouco de cada um do especulado no parágrafo acima, mas Natal é, antes de tudo, simbologia. A necessidade pessoal de se sentir melhor do que é na realidade; deixar por menos os inesgotáveis motes familiares; ver a saúde como o resultado da genética, dos exercícios feitos ou não, do comido, do bebido e de como nos aceitamos no nosso mundinho real e no imenso universo.
Natal é, mesmo assim, sinal de vida. Somos parte da humanidade. Essa a enfrentar-se no Oriente Médio de forma absurda para os nossos olhares não árabes; ver a decadência política e econômica do Brasil causada pelo descaso de cada um de nós, os eleitores. Não era para ser assim?! Era. Nós somos causa e efeito do todo a nos aturdir. 
Em seguida, logo ali, o ano novo, um dia igual a todos, pois feriado dito da confraternização universal. Exato nesse dia nos trancamos em nossas casas, dando trato à imaginação e na reflexão feita não encontramos a pedra filosofal ou mera saída.  Daqui a menos de um mês, a Casa Branca voltará a ser branca. E o Jaburu? Feliz Natal!


sábado, 24 de dezembro de 2016

"Os Conterrâneos", especial da FM Assembleia 96,7 MHz

Clique na imagem para ampliar!
A rádio FM Assembleia (96.7 MHz) apresenta neste sábado (24/12), às 22h, o especial de Natal e fim de ano Os Conterrâneos. A produção faz uma reverência aos compositores Belchior, Ednardo e Fagner, reunindo importantes composições gravadas em shows realizados ao vivo e raramente tocadas no rádio.
O especial Os Conterrâneos apresenta também depoimentos de artistas, amigos e familiares, os quais revelam detalhes da convivência pessoal e profissional com Belchior, Ednardo e Fagner.
O especial é uma realização do coordenador de programação e áudio da rádio FM Assembleia, Ronaldo César, com direção de Fátima Abreu, produção de Tarciana Campos, edição de Jorge Luiz e Nabucodonosor Queiroz, e conta com a narração de Haroldo Holanda; Jânio Alves e Renato Abreu.
A produção vai ao ar neste sábado (24/12), às 22h, e no domingo (25/12), às 15h.
Com reprise no sábado, (31/12), às 22h, e no domingo, dia 1º de janeiro, às 15h.
NÃO PERCA!


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Orelhas de Raymundo Netto para "Miudezas do Azul", livro de poemas de Diogo Fontenelle


“Abro meu coração para o azul-sonhar.”

“Toda distância é azul.”
Otto Lara Resende

Miudezas do Azul, obra dividida em três azuis – azul-infância, azul-dia a dia e azul-amém –, é o 17º livro publicado deste profícuo – e, desnecessário dizer, sempre onírico – poeta das estrelas: Diogo Fontenelle.
Em “Miudezas do azul-infância”, sob o luar ou copa de árvores, regressa ao imaginário infantil, embalado por “Conceição”, tangendo em linhas melódicas, “feito um bandolim”, os acordes de seu passado, cosidos em coloridos e alegóricos versos de lembramentos e agonizantes saudades, a ondular toda a obra como bolhas de sabão no ar: quintais, jardins, árvores de estimação, piões e pipas, doce de leite, sonhos, objetos afetivos, alfenim, a rede branca de cordas, pregões de rua, contos infantis, personagens, cartas, telegramas, fotografias, folguedos, as cadeiras nas calçadas, lendas, leituras, pessoas queridas – entre elas, claro, dona Carmelita, mulher, mãe e guardiã, marchetada na caligrafia amorosa do poeta –, para imprimir num suspiro desabafado: “Hoje, desfolho-me em lamentos de antessala/Hoje, toureio razões de um desamado ancião.”
“Miudezas do azul-dia a dia” também leva o poeta ao passado, entretanto, não é mais a nostalgia que nos escreve, mas, sim, o gole amargo da desilusão, do desperdício, de juízos e a dor da incompreensão num “reino do não agendado”, vertido em sua “lágrima de pierrô”, que reside em uma Fortaleza que “virou mais uma metrópole banal de almas desencantandas.”: “Meu olhar infantil se foi: vejo tudo pequeno demais.”
Atentemos que nessas miudezas é possível perceber e compartilhar os aspectos sinestésicos que provocam e apuram seus poemas, além de causos, histórias e até anedotas transformadas em poesia, o “sumo de afeto em gota com bagaço de melancolia.”
Há, entre os poemas, a expressão de sua insubmissão à desigualdade social: “Sonho de menino pobre é luz de fósforo na escuridão.”
Engana-se quem pensa que “Miudezas do azul-amém” versa sobre doutrina ou religião. Essa tércia parte, embaciada pelo chuvisco nas vidraças de sua janela, se destina a amigos, a crenças de seu viver-sonhar, aos mortos, à sua leitura do mundo e à certeza de ser impossível aprender “as medidas dos afetos”: “Nem sei se o tempo passa, ou se sou eu que passo./ Nesse mistério sem proporção nem luz na escuridão,/ Vou eu ser vagalume pelo desvão do tempo-espaço/ Na desproporção de um poeta sem voz nem canção.”
Há em “Miudezas do azul-amém” a insistência obstinada do “nunca mais”, representada na certeza de Otto Lara Resende – pelo que nos lembra Diogo –, ao clamar: “toda distância é azul”. Aliás, também é Otto que diz: "Uma criança vê o que um adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que de tão visto ninguém vê.” E, por isso, nosso poeta-menino ainda assegura: “Quando os ventos me chamarem, serei caravela”.
Como o sol que se afoga na tarde e a noite que desliza nos telhados, os versos azuladores de Diogo sangram afetos e vaporam alfazemas, plenos de amores. Impossível não provocar as nossas próprias recordações diante de quadros tão bem produzidos em seus matizes pessoais. Apesar da maturidade de sua poesia, Diogo consegue imprimir nela o encanto e a doçura necessários ao olhar de criança. Como ele mesmo diz: em sua “alma de menino-ancião”.
Para o leitor, seguramente, deparar-se com essas páginas de desmedidas miudezas será como encontrar, a germinar em silêncio, uma rica botija enterrada no coração do poeta.