domingo, 20 de maio de 2018

"Dolorosa", conto de Raymundo Netto para O POVO



A sisuda e determinada viuvez de Dolorosa era de causar espanto até no falecido.
Não fosse para comprar o pão matutino, nunca de sair às ruas, de oferecer-se em janela e muito menos de se desocupar em calçada. Durante o dia, flagrada em oração diante do bem cuidado oratório, onde descansavam aromáticas flores do campo em torno do derradeiro retrato de seu inesquecível amor. Depois, por horas, calava a respiração na imagem do morto, impressa ainda mais no peito em luto. Assegurava cumprir a clausura em vida, pois se dava por jurada ao ser amado, aquele que, dizia, só lhe contrariara uma única vez: na prematura morte!
Assistindo àquele martírio, imploravam os amigos: “Tão moça. Vai, mulher, viva!”. Para Dolorosa, todavia, amor que o tempo consome não é amor. O verdadeiro, único e exclusivo amor, herança maior do Deus que um dia os unira, sobrepujava a tudo, inclusive, a ausência física, merecendo ele toda e qualquer renúncia. Realmente era esse seu pensamento. Uma agonia, porém, a enredara, justo na solidão das eternas noites solitárias, quando suores e desejos eram contidos violentamente a pedradas de vergonha pela casta consciência. Sim, vivia ela um dilema secreto: o despertar do querer por outro homem.
João era um jovem auxiliar de padaria, bem mais moço que Dolorosa. Há meses, naquele estabelecimento, um descuido: trocaram olhares, e, num desses, Dolorosa fraquejou. No momento não sabia, mas João já a observava. Soube ele daquela viuvez defendida a todo custo. Isso o atraía profundamente. Também ele, às noites, em seu catre cheirando a farinha, se via perdido em lençol e no domínio da branquidão do corpo intacto daquela mulher. Imaginava ela entregue e em delírios, por tanto vigor reprimido. Naquelas manhãs, mesmo quando apartados pela lonjura incalculável do balcão, lia, escrito nos olhos divinos dela, a recusa ao toque alheio. Vê-la, sentir a polpa dos seus dedos ao receber os trocados do pão, buscá-la no interior das janelas da casa escura, passaram a ser as suas motivações de existir nesse mundo.
Um dia, Dolorosa despertou lívida e mais cedo que o de costume. Aguardou a abertura das portas de ferro da padaria. Correu ao longo do balcão e dirigiu-se ao rapaz. Entregou-lhe um dinheiro: “Moço, preciso ir à rua. Você poderia levar meus pães mais tarde em minha casa?”
João, surpreso, não recusaria. Assim, ao vê-la passar de volta, imediatamente enrolou os pães e plantou-se à sua porta, cuja soleira, há anos, não cruzava um coração masculino.
Dolorosa o aguardava. Ávida, abriu a porta e, por instantes, os dois permaneceram parados e mudos. O que João não sabia é que ela não o via exatamente como a vida o pintara, mas, sim, um quadro mórbido e repugnante. O corpo em ruínas e farrapos. Os ossos e traços de músculos revelados por entre carnes escuras carcomidas em vermes. A caveira sorridente a denunciar olhos amarelecidos, a língua negra e seca. Apenas os restos da imagem do homem que um dia o marido, e não o João, foi.
Depois, cerrada a porta, a respiração de ambos abrasava a casa de tal modo que os espelhos da sala embaçaram, recusando assistir ao ritual feroz e lascivo daqueles amantes que exalavam, no ardor do suor e do amor, o perfume frio e acolhedor da mais fiel sepultura.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Uane 35 anos: Educação a Distância, mas sem Distância"


UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE (Uane)
35 anos para todo o Brasil!

A Universidade Aberta do Nordeste (Uane) foi criada em 1983, quando a Universidade de Brasília (UnB) disseminou a experiência de educação a distância baseada no modelo da Open University de Londres. A sua primeira aula, do curso “O que é Política”, com apoio da UnB e da Superintendência de Recursos Humanos do Governo do Estado do Ceará, foi encartada em jornal em 8 de maio de 1983.
A Fundação Demócrito Rocha, instituída dois anos depois, assumiu o programa e, desde então, juntamente com vinte universidades brasileiras viabilizaram o projeto de cursos de extensão universitária a distância.
Até 1989, a Fundação Demócrito Rocha seria a única instituição privada não universitária no país a ser convidada para integrar a Rede Brasileira de Educação Superior Aberta e a Distância (Read), na época, recém-criada em Brasília por um circuito de universidades públicas e privadas, sob os auspícios do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras (CRUB), considerando a Uane “como a maior e mais importante experiência de educação superior não presencial, indicando-a como modelo não só para o resto do país, como também para outros países da América Latina que dispõem de grandes jornais e de um moderno sistema de radiodifusão.” (O POVO, 4 de novembro de 1989), sendo recomendada ao Poder Público e à iniciativa privada o apoio a seus programas educacionais, pela Secretaria do Ensino Superior do Ministério da Educação, por se tratar de “uma experiência pioneira, sem similar no Brasil” (Parecer MEC/SESU nº 263/88).
 Em 1º de novembro de 1989, a Fundação Demócrito Rocha assinou convênio com a Universidade de Brasília (UnB) para o desenvolvimento de um programa de ensino superior a distância no Nordeste por meio da Uane. Pelos termos do convênio, a UnB produziria cursos de extensão universitária, responsabilizando-se pela avaliação e certificação, enquanto a Uane se encarregaria da ampla difusão do Programa em Educação Continuada em Ciência e Tecnologia desenvolvido pela UnB, Universidade de Campinas (Unicamp), Organização dos Estados Americanos (OEA) e Federação Nacional dos Engenheiros.
Inicialmente, a Uane se limitava à publicação dos cursos de extensão universitária editados pela UnB, mas logo criou os círculos de estudos dirigidos, tira-dúvidas por correspondência, biblioteca circulante, serviços de reembolso postal, entre outros recursos.
Em dezembro de 1996, o representante da Unesco no Brasil, Jorge Werthein, assinou convênio com a Fundação Demócrito Rocha de parceria em projetos de Educação, Cultura, Ciências Sociais, Exatas e Comunicação, figurando seu selo nos fascículos e demais materiais produzidos pela Uane até 2015.
Com a publicação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/96) e o reconhecimento da educação a distância como modalidade de ensino, a Uane ampliou seu raio de atuação, passando a oferecer além dos cursos de extensão, cursos técnicos profissionalizantes de nível médio e cursos livres.
Historicamente, a Uane utiliza os mais diversos recursos e ferramentas pedagógicas síncronas e assíncronas de ensino-aprendizagem, no intuito de assegurar o máximo de aproveitamento do aluno e mitigar os índices comuns de evasão, promovendo uma “educação a distância, mas sem distância”. Entre eles: material pedagógico impresso, em formato PDF e em html, videoaulas, radioaulas, webconferências, audiofascículos e ambiente virtual de aprendizagem (AVA), tutoria on-line, entre outros.
Os cursos, de forma geral, oferecidos pela Universidade Aberta do Nordeste (Uane/FDR) têm como objetivo primordial qualificar a população por meio da educação continuada e aberta desenvolvendo competências e habilidades articuladas com as premissas apontadas pela Unesco para a educação do século XXI, quais sejam: aprender a conhecer; aprender a fazer; aprender a viver e aprender a ser.
Hoje, aos 35 anos e com muitos motivos e amigos para comemorar, a Uane, filiada a Associação Brasileira de Ensino a Distância (Abed), já ofereceu 68 cursos de extensão universitária, assistindo a mais de um milhão de alunos inscritos em todos os estados brasileiros, formou 24 turmas do curso Técnico em Secretaria Escolar e promoveu 11 cursos livres.
Seja você também mais um(a) amigo(a) da Uane/FDR. Fique com a gente:

ava.fdr.org.br



segunda-feira, 7 de maio de 2018

"Cebola Cortada", de Raymundo Netto para O POVO



“Nossa, você é mesmo dura como pedra!”
Casimiro achava incrível a enfática frieza da noiva. Desde que a conhecera, nunca de tê-la visto derramar uma única lágrima por nada nem por ninguém. Cria ele que, por ser mulher, deveria ela ser a porção sensível do casal. Mas não. Ao contrário, seria ele, no dizer do povo, uma manteiga derretida, enquanto Petra, a noiva, era inabalável: “Se é assim, o que fazer? Adianta chorar, adianta?”
Aquela objetividade o molestava miseravelmente. Dissertava: “O pranto feminino tem um quê de beleza, suavidade, ternura, como se a pedir ninho, proteção, segurança.” Petra ria e fazia pouco: “Não é por ser mulher que tenho que ser assim...” E não precisava mesmo. Contudo, até entre as amigas, era discriminada. Nunca de ser convidada como dama de honra, madrinha de casamento ou dos sobrinhos, nem de receber convite para leituras ou mesmo rodas de oração, simplesmente porque sabiam que Petra sequer umedeceria os olhos e muito menos expressaria qualquer emoção. Aliás, no próprio casamento, Petra não chorou. Todo mundo desmaiando, se descabelando, caindo em prantos mais sentidos e ela lá, devorando a mesa de doces às gargalhadas e enchendo deles os bolsos do paletó do marido que, sem graça, a censurava: “Meu bem, você não tem sentimentos, não?”
Alguns anos vieram, assim como os filhos, mas nenhuma lágrima se viu.
Não percebia ela, mas Casimiro vivia um colapso moral. Sentia-se pequeno e frágil comparado à esposa casca grossa. Os diálogos rarearam e, só assim, Petra se alertou. Decidiu salvar a relação e quis aprender a cozinhar para ele. Sim, até então, tudo que era consumido em casa vinha em quentinhas.
Um dia, estava à cozinha praticando a sua culinária de internet, quando começou a cortar cebolas. Não demorou muito para que estranhasse: e não é que estava chorando? Não acreditou. Enquanto esfregava o dorso da mão por sobre os olhos, ria-se de tanto chorar. Chorava pela primeira vez na vida e o fazia fartamente tal qual torneira arrebentada. “Que sensação maravilhosa!” Foi quando se deu conta do tempo que perdera. Daí, sem saber por que, lembrou-se do pai – morrera tão cedo... – a segurar a sua mãozinha de criança em um passeio na praça. Veio-lhe a saudade dos braços calorosos da mãe a lhe embalar o sono. As horas em cima do muro do colégio à espera dos pais e o medo de ser esquecida. A imagem do Eduardo, o vizinho que amara com todas as suas forças de adolescente, e que nunca lhe dera a menor bola. As amigas que lhe deram as costas. As discussões intermináveis com o marido. As primeiras doenças dos filhos... enfim, a sua vida inteira lhe era revelada naquelas cebolas.
Passou a se entregar a elas. Mal dormia pensando na hora de voltar à cozinha e iniciar o seu corte psicanalítico. A choradeira era tanta, que os filhos em zombaria lhe apontavam o dedo: “Mamãe está chorando! Mamãe está chorando!” E estava mesmo. Berrava e gemia revivendo as suas angústias e a desabafar pelos olhos. Aquilo, sentia, era libertador. E assim lhe foram todos os dias, até aquele em que, descuidosamente, ao remexer na roupa de lavanderia, encontrou um bilhete do dia anterior no bolso de Casimiro: “Meu amor, te espero. De hoje não passa! Beijos”. Logo a seguir, um endereço. Petra não acreditou: “Tanto esforço e o canalha se divertindo com outra? Que desaforado!” Indignada, trocou a roupa e se dirigiu ao covil daqueles amantes.
Não é preciso dizer como se deu estrondosa a sua entrada no apartamentinho. Casimiro e a amante, flagrados em lençóis, assistiam mudos à mulher de olhos coléricos a esbravejar. Petra então sacou da bolsa uma faca. O pânico tomou conta: “Não, querida, não faça isso... Não faça!” Em seguida, ela tirou da mesma bolsa uma enorme cebola, a maior de todas, e começou a cortá-la delirante frente ao casal estupefato, derramando por sobre eles as lágrimas de toda a sua vida.




sábado, 21 de abril de 2018

"Bodas", de Raymundo Netto para O POVO



O assunto de domingo em família não poderia ser outro: as bodas de prata daquele casal. Irmãos, cunhados, filhos, genros, noras e netos, enquanto bebiam e comiam como se o mundo fosse acabar amanhã, abusavam do tema com os protagonistas, exigindo-lhes confissões e histórias do passado – algumas que eles próprios gostariam de esquecer ou das quais não se orgulhavam. Portanto, com todos os detalhes que só os chatos conhecem e exigem, se ocupavam do encontro marcado pelo destino, a chegada dos filhos, as noites em claro, os passeios em grupos e tudo o mais que testemunhasse estar ali um bastião do amor perpétuo.
Conversa vai e a cachaça vem, um cunhado – sempre tem um – saiu com a fatídica e desconcertante pergunta: “E no rala e rola, como anda o casal?”
Átila, na berlinda, assegurou enfaticamente: “É todo dia, meu filho. Sem falta. Bato esse ponto todos os dias!” A aclamação foi imediata, assim como à esposa, a Arlete, que, com sorrisinho sem graça, recebeu palmadinhas nas costas do mesmo maldito cunhado.
Contudo, horas depois, já em casa, o silêncio que preenchia o trajeto se avolumava diante da inquietude de retratos pregados na parede, no console e na cabeceira a denunciar a chegada de estranhos.
Como de costume, Arlete dirigia-se ao quarto e enfiava, como um avestruz na areia, a cabeça no travesseiro. Átila ligava a TV para assistir a qualquer coisa, qualquer mesmo, até dormir e roncar como se estivesse para morrer, mas nunca seguia a esposa àquele quarto. Esperava uma hora, duas ou mais. Daí, sim, dirigia-se a ele e delicadamente deitava-se à cama, na pequena parte que lhe cabia. Ela, por outro lado, assistia à chegada do marido com o mesmo silêncio. Deste modo, durante anos, como num pacto: ele fingia que achava que ela estava dormindo e ela fingia dormir e que não o via chegar. Naquele dia, porém, Arlete sentira uma dor absurda: “É todo dia, meu filho. Todos os dias”. Não saía de seus ouvidos a voz do marido naquele gracejo idiota e inverossímil. Não sabia por que, mas a ideia de deitar-se com ele, de saciar-lhe qualquer desejo ou oferecer-lhe o mínimo prazer, soava como uma ofensa descomunal. Então, durante dias, ela não conseguiria mais falar, sequer olhar para ele.
Na noite da véspera da festa, algo aconteceu. Estava ela deitada a fingir seu sono, quando Átila chegou. Para sua surpresa, ele falou: “Arlete, amanhã é melhor não se esquecer de ligar cedo para o bifê” e se cobriu no lençol. Ela arregalou os olhos. “Então, por todos aqueles anos ele sabia que ela não estava dormindo?”. Ele sabia! Ele sabia... Assim, como se fora toda feita em água, chorou até amanhecer.
Era o dia da festa de bodas. Um investimento absurdo. Amigos, familiares, colegas da empresa, alegres, reuniam-se em torno daquele amor que, gratuito, adoçava com bem-casados a boca de todos. E, na ritual hora do brinde, o prestigiado Átila, felicíssimo em um fraque alugado, segurando a mão de uma apática Arlete, levantou a taça e proferiu um discurso comovente. Ao final, arrematou: “E, o mais importante, mesmo após 25 anos, bato esse ponto todos os dias...” No que a mulher levantou-se, gritando alucinada, como se em humilhação pública: “Mentira! É Mentiraaaaaa!”



segunda-feira, 9 de abril de 2018

"O Plano Materno", de Raymundo Netto para O POVO



“Mulher dormindo com o filho” (1926), de Hermann A. Scherer.

Mamãe, eu não sei mais o que fazer com Imaculada...
Dona Mariquinhas, a mãe, era viúva de longa estrada. Com a morte de Horácio, o venerado esposo, enfrentou a criação e sustento do filho, fruto primeiro e único desse inconsolável amor. Daí, pouco sair à rua. Menos ainda amigos. Mesmo quando do filho em casa, para ajudá-la nas tarefas domésticas, as mais pesadas, tinha apenas o auxílio de Amâncio, um jovem abobalhado e truculento que criara desde menino, acolhido no lar em troca de casa e comida. Depois do casamento do filho com a sua primeira namorada, aquela Imaculada, sofreu horrores de abandono do ninho, até acostumar-se, se é que isso aconteceu.
. Aquele filho, no entanto, cheio de mimos, tornou-se um palerma de primeira. Tirando a instrução, mal sabia amarrar os cadarços. Naquele dia, por exemplo, em meio a dúvidas profundas, largara a clientela do escritório para buscar a barra de sua saia: “Imaculada, há dias, estava irreconhecível. Comprara lingerie indecorosa e uma calcinha que... (enguiou) e, no momento do amor, pôs-se a me dizer obscenidades, sem-vergonhices, palavrões. Pedir coisas. Nunca foi disso antes. Parecia endemoniada.”
A mãe desconfiou: “Tem boi na linha...” Aumentou a pressão dos dedos no cafuné. “Algum cafajeste está na área ou é má influência de amigas solteiras.” Concluiu: “Também, não há mais homens. Como o Horário, que era homem com H maiúsculo, e com 2 H, é bom que se diga, não se encontra mais.”
— Também não se encontra mulher como você, mamãe. Mulher honesta, irrepreensível, fiel até depois da morte. Diz, mãezinha, o que devo fazer?
— Uma prova! Você precisa é de uma prova. Mulher quando se perde, tem jeito não. As sonsas são as piores! Mas deixe que a sua mamãe tem uma ideia...
Então, dona Mariquinhas segredou ao ouvido medroso o terrível plano.
No outro dia, estava o casal na sala. Ele na poltrona e Imaculada deitada no sofá, quando batem à porta: um mensageiro! Vinha lhe entregar um buquê de rosas escandalosamente vermelhas. O canastrão, sabendo do embuste, pediu que ela atendesse. Fingiu surpresa: “Rosas? Deve ser engano. Só pode.” Percebeu ela colher o cartão do pretenso amante – com mensagem que ele mesmo digitara – e o esconder furtivamente ao decote: “Ah, mas são lindas... Vou pô-las no vaso, amor.”
Ainda com teatro, ele anunciou sono e dirigiu-se ao quarto, orelha em pé, ouvindo a esposa falar baixinho ao celular. Logo, confusa e disfarçando o pouco jeito, a mulher entrou no quarto e começou a se despir. Não suportando mais, ele saltou rapidamente, pegou o celular dela e saiu correndo, enlouquecido: “Sua vagabunda! Eu mato ele! Eu mato os dois!
Como sempre, sem saber o que fazer e incapaz de matar uma barata, correu em busca do colo materno que, no adiantado da hora, estava às escuras. Entrou. Sentindo-se irremediavelmente ferido de traição, como um bebê assombrado, se jogou na cama da mãe, sendo violentamente apanhado pelos seus braços:
— Amâncio, seu guloso, quer mais da sua cachorra, né? Vem, tarado, vem!
Então, completamente pasmo e entregue, provou daquele beijo a fórceps, a quase extrair-lhe a alma inteira.



segunda-feira, 26 de março de 2018

"De Pedra", de Raymundo Netto para O POVO



Mesmo não suportando a loucura da mulher, vê-la partir lhe seria insuportável.
Uma noite, durante conflituoso jantar, a drogou. Tomou-a adormecida nos braços e a levou para o mato, quase em frente à lagoa, ainda visível à janela de sua casa. Lá chegando, amarrou-a rente a um tronco estreito de árvore, onde previamente havia preparado baldes com água, areia e cimento.
Desacordada, ela respirava suavemente, balbuciando seu nome e deixando que a lua revelasse a ternura no rosto, à medida que ele punha e moldava sobre seu corpo a massa ainda molhada do cimento. Começou pelos pés. Aos poucos, as pernas, o tronco, os seios, os braços, até finalmente cobrir-lhe toda a cabeça.
Amanheceu. O Sol o encontrou sentado no capim, ainda trêmulo, com uma pequena espátula à mão e olheiras marcadas de despedida, enquanto iluminava e aquecia a figura tosca daquela mulher. Foi quando teve a impressão de ouvir dela um soluço abafado, quase como um estalo. “Acordara?”
Todos os dias, seria a primeira imagem que veria ao levantar. Horas e horas à janela.
À noite, tinha pesadelos. Ouvia os seus desaforos, as suas lamúrias. Imaginava que ela lá não mais estaria, que mesmo em pedra pudesse lhe escapar, se lançando nas águas lodosas da lagoa. Mas não. Ela permanecia ali, imóvel, como encantada, a seu alcance, aquecida para sempre em seu amor e zelo. E assim foi durante meses.
A ausência dela era quase despercebida. Trabalhava em casa, poucos amigos, filha única de mãe idosa. Quando muito, um telefonema — "Ela não está. Quer deixar recado?" — Não queria. Sabia que a ingrata não retornaria.
Aos finais de tarde, aguardava a noite ao lado da mulher. Falava sobre seus dias, contava-lhe novidades, a presenteava, confessava a falta que lhe fazia e, por fim, numa loucura própria e sincera dos amantes, a cobria em beijos amorosos, se agarrando àquele corpo frio, áspero e inerte.
Em uma noite quente, porém, ele acordou e viu ao pé de sua cama a mulher de pedra. Em silêncio, e através de seus olhos nus e cinzentos, parecia mirá-lo, até jogar-se sobre ele, e, com as mãos, tomar-lhe fortemente o pescoço e o ar. Valendo-se do vagar desajeitado da estátua, ele conseguiu, com esforço, escapar-lhe. Ainda torpe e surpreso, pegou uma marreta e a golpeou no abdome. O corpo começou a rachar. Abriu-se de meio a meio. "O que foi que eu fiz, meu amor? O que foi que eu fiz?", repetia. A estátua fez-se em pedaços e de seu interior apenas um grito moribundo, aterrorizante, de uma agonia jamais ouvida igual.
Ele, abalado, jogou-se sobre os escombros, a procurar a mulher, qualquer pedaço dela, mas nada encontrou. Saiu gritando, com restos de entulho nas mãos, e jogou-se na lagoa, pondo-se no fundo da lama com o peso de sua própria consciência e da imagem perdida de sua mulher amada.


quinta-feira, 15 de março de 2018

"Versos ao Sono", soneto de Sânzio de Azevedo



Meus pais se foram, já faz muitos anos.
Perdi depois o irmão mais velho e, um dia,
minha única irmã a travessia
inevitável fez, e dos meus manos

apenas um ficou. A fantasia
enche-me a solitude com os enganos
quando, à noite, mergulho nos arcanos
dos devaneios, que a lembrança cria.

Dormindo, pela névoa da saudade,
estou a vê-los novamente rindo
como os via, feliz, na mocidade.

Hoje, o consolo aos dias mais tristonhos
é, no meio da noite, o instante lindo
de rever o passado nos meus sonhos.



segunda-feira, 12 de março de 2018

"La Femme Bateau", de Raymundo Netto para O POVO


Foto: Francisco Viana


Para Sérvulo Esmeraldo
no Dia Internacional da Mulher

Vivia solitária em um barquinho rizado a se equilibrar por sobre longarinas a guerreira cariri. Por olhos castanhos amendoados, assistia todos os dias às crianças encimadas em ondas crespas a usar e abusar do seu eterno vaivém: “Quisera também eu ter essa liberdade”, pensava.
Ao longe, podíamos vê-la, quase triste, os compridos cabelos sempre a acompanhar a ciranda dos ventos e o passo do tempo, abstraída às manhãs num manto de luz e completamente enamorada pela linha do horizonte. Cansada da sua calculada ilusão, tinha por sonho, não sabíamos, bordejar, cruzar o desejado horizonte úmido e distante em abraços.
Um dia, o sol não amanheceu. Nuvens escuras tomaram os céus e o seu corpo em sombras, lançaram espadas de luz, rugiram e entornaram na terra outro mar cristalino.
As águas marinhas não aceitaram a invasão daquelas celestiais e as combateram com suas maiores e mais potentes vagas, numa revolta devastadora jamais vista.
A guerreira de aço testemunhou com assombro o violento embate das águas que ali se dava. Aos empurrões e tropeços, se jogavam contra as pedras da praia em forma de arrebentação, levando com elas o fundo do mar em areias e destroçando as vigas de madeira do velho píer. Era “o mar engolindo lindo e o mal engolindo rindo.”
Foi quando, com astúcia e na certeza da efemeridade das coisas, o mar verde esmeraldo lançou-se sobre ela, como se a devorasse, e a arrancou de seu cativeiro.
Por um momento, saracoteando na crista da onda, ela acreditou ter alcançado o seu sonho: “Liberdade, finalmente?” Buscou seu amado e não o encontrou. Não havia mais nem céu nem mar, apenas um mundo gris. Todavia, desastrada e pesada, tombou na profunda escuridão do mar, no qual, antes de desmaiar, por um ângulo exato pôde ver os botos-cinzas cor de chuva, debochados como eram, a brincar de atrações nas ruínas do malfadado aquário natimorto.
Acordou dias depois, com parafusos a menos, assistida por homenzinhos com pés de pato. Ela, porém, para a surpresa deles, teimava em não segui-los. Não queria voltar.
Na superfície, cansada de lutar contra a sua captura, rodeada por uma turba de curiosos, ouviu, como em uma viniciana anunciação, quando lhe perguntaram: “De onde vens assim, tão suja de terra?”
E ela respondeu, pois eu ouvi, na voz silente dos ventos: “A maior provação para o amor é deixar partir. Queria mesmo era ficar na lembrança, sentir a permanência única da saudade, colorir o imaginário do povo como aquela que se fez livre, escolheu seu caminho e se foi para todo sempre.”



sábado, 3 de março de 2018

Amigos do AlmanaCULTURA: Sânzio de Azevedo



Demócrito Rocha: 130 anos

Quando professor de Literatura Cearense no Curso de Letras da UFC, ao falar do Modernismo, o nome que eu mais destacava era o de Demócrito Rocha, o poeta de “O Rio Jaguaribe é uma artéria aberta”, que assinou (como a todos os seus poemas) como Antônio Garrido. Ao incluir o poema na minha Literatura Cearense (1976), pensei em pôr o pseudônimo, mas era tarde: todo mundo sabia quem era o autor dos versos: “O Rio Jaguaribe é uma artéria aberta / por onde escorre / e se perde / o sangue do Ceará. / O mar não se tinge de vermelho / porque o sangue do Ceará / é azul.”
Se formos pinçar os termos científicos do poema, veremos que são muitos, como artéria, plasma, hemoglobina, sístole, aneurismas, rede capilar, carótida, injeção de soro, células, protoplasma, cromatina, etc., mas vamos ver que os vocábulos, lidos ao longo do texto, se diluem na eloquência que povoa os versos, razão de ter sido um dos poemas preferidos pelos declamadores. 
Esse baiano de Caravelas, que veio ser jornalista no Ceará, fundando em 1928 o jornal O POVO, merecia ser mais lembrado. Raymundo Netto, notável trabalhador intelectual, escreveu uma série de textos sobre ele, mas suponho que não foram enfeixados em livro. Mas um dia desses ele, Netto, lembrou que este ano de 2018 marca os 130 anos do escritor.
Nesse artigo, em que faz justiça ao homem de letras, Raymundo Netto afirma: “Quem conhece um pouco da história do Ceará sabe que é impossível se passar pelas décadas de 1910 a 1940 do século XX sem tocar no seu nome.”
Meu Pai, o poeta e pintor Otacílio de Azevedo, que conheceu de perto esse intelectual, ao lembrá-lo no livro Fortaleza Descalça disse ter sido ele “talvez o maior dos jornalistas de nossa terra”.

Sânzio de Azevedo
                                                      Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, membro da Academia Cearense de Letras e, ainda hoje, o maior pesquisador da literatura produzida no estado do Ceará.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

"Boca de Beijar", de Raymundo Netto para O POVO



Era de uma loucura por beijo. Fazia tudo, de tudo, por um beijo. Não lhes negassem um beijo por nada. Antes a morte! Embora, entre últimos suspiros, não abrisse mão, digo, a boca, do derradeiro beijo.
Fosse uma mocinha inexperta, pregada à soleira dos castos anos, a avistar ao longe as guirlandas de uma ingênua paixão, vá lá! Mas ouvir de um homem feito, quarentão, mais vivido e passado do que colarinho de político, o discurso meloso sobre um mero beijo, soava para nós tal qual uma extravagante promiscuidade.
De fato, Nicolau era um homem comum, sem nenhum dote a justificar o aparente sucesso com as mulheres. De novo, apenas aquela devoção à teoria sobre o beijo, que, em alguns momentos, para nosso deleite de mesa de bar, assumia um tom sobrenatural:
– O beijo, meus amigos, não duvidem, é o mais poderoso afrodisíaco que há na Terra. Escolho as mulheres pelo beijo. Entrego-me àquele que me há de ser sempre doce e profundo, pleno, demoroso, longo e largo como uma vida inteira...
Daí, em torno de um Tristão de olhos cerrados, surgia uma aura frouxa, como rósea névoa, a lhe tomar o rosto e o peito, enquanto naqueles lábios subitamente tácitos, eu juro, podíamos sentir a presença do fruto etéreo em sua boca fanaticamente desejada.
Não era segredo para ninguém. Aliás, ele mesmo fazia questão de espalhar a sua tara por bocas. Até as mulheres que, por fado, lhe caiam na conversa,  sabiam da sua fama de imodesto e cobiçoso beijador. No começo, foi levado no pagode, mas depois, com o tempo, veio o incômodo da vizinhança. Suas vítimas avolumavam-se dia após dia. O inaceitável é que, após o previsível desenlace, elas sofriam horrores, dignas de uma viuvez de falecido vivo. Maldiziam o desgraçado, choravam às esquinas, mas nunca que jamais o esqueciam. Por toda a região se sabia: "Ai de quem as tivesse depois de Nicolau..."
O único que parecia não se inquietar com isso era o próprio Nicolau, a se passar tão serelepe quanto antes, entregando os beiços sedentos a novas candidatas seduzidas pela experiência idílica de seu beijo vicioso.
Os outros rapazes, num misto de vergonha e incompetência, passaram a hostilizá-lo, assim como os familiares das ex-namoradas. Afinal, lhes parecia inconcebível aquela impudica e inarredável dependência pela boca alheia, o que fez com que o galã se visse obrigado a sair menos às ruas. E, quando o fazia, era um rebuliço: as mães cerravam as janelas dos quartos das moçoilas já inclinadas à tentação, enquanto procuravam, com custo, segurar as demais, ainda por ele encantadas, na busca desesperada de uma calorosa reconciliação.
Numa manhã, o inevitável: "Nicolau foi encontrado morto, provavelmente a pauladas, numa vereda do boqueirão", contou-nos, com descarado alívio, o delegado, pai de uma das moças beijocadas pelo “libertino”.
Deste modo, muitas mães também eufóricas ao receberam as “boas novas” abriram as cortinas e as janelas das alcovas de suas filhas que, assim como outras surpresas e honradas mulheres, naquela mesma manhã, despertaram, para o espanto geral, sem bocas.