domingo, 20 de abril de 2014

"A Leitura de um Livro", de Ana Miranda para O POVO


Dizia Borges que o livro não passa de papel e tinta, o que lhe dá vida e relevo é o que acontece na mente do leitor. A leitura é um processo tão complexo que talvez não possa ser totalmente compreendido. É a relação mais íntima que pode existir entre duas pessoas, pois o autor se revela em sua plenitude, e o leitor descobre a verdade ali contida, revelando a si mesmo suas próprias verdades. 
O leitor está silencioso, sozinho, debruçado sobre o livro, numa atenção de grande intensidade, pois qualquer distração faz cessar a leitura. Ele não sofre de interferências externas que possam censurar sua visão, sua compreensão ou seus julgamentos. Ele é capaz de ouvir tudo e qualquer coisa sob o prisma mais pessoal e independente. Ele ouve a própria voz, mas também ouve a voz do autor, do narrador, dos personagens. Sua mente funciona da mesma forma que a mente do autor, seus sentimentos e emoções percorrem as mesmas curvas, ele vê e imagina o que viu e imaginou o escritor. Um casamento. Por isso, é importante escolher bem o livro que vamos ler. Mas o próprio livro é indefeso, está aberto a qualquer leitor. 
O leitor não deixa de ser ele mesmo, mas passa a ser o livro durante a leitura, e o mesmo ocorre no sentido inverso: o livro passa a ser o que o leitor pensa dele. Nessa comunhão secreta e tantas vezes apaixonada, a mente do leitor aprende a funcionar de uma nova maneira, ampliando as possibilidades de raciocínio e percepção. A verdade do livro torna-se uma nova verdade, recebendo e incorporando uma nova interpretação.  
O livro é absolutamente flexível. Cada leitor transforma o livro naquilo que ele, o leitor, é. Há leitores ingênuos, leitores críticos, renitentes, eruditos, sentimentais, rancorosos, concentrados, invejosos, generosos, distraídos, racionais, emotivos, afetivos, livres, presos, os influenciáveis, autônomos, românticos, desatentos ou atentos, os deprimidos, os alegres... O livro vai se amoldando. A cada geração de leitores o livro se amolda, indo de encontro às necessidades interiores do leitor e relativas ao tempo, à época. A mobilidade de um livro é tão extraordinária quanto a de seus leitores.
Há livros bons, e livros de pouca qualidade. Livros de alta literatura, e livros rasos. Livros de arte, de entretenimento, de conhecimento, de informação, de realidades, de sonhos... Mas todos têm suas qualidades, para este ou aquele leitor, este ou outro dia, para esta ou aquela geração de leitores. Muitos livros desconsiderados, incompreendidos, em outro tempo se tornam clássicos, admiráveis. E grandes sucessos podem simplesmente desaparecer. Só o tempo é capaz de provar a qualidade de um livro. Só a insistência necessitada do leitor pode mantê-lo vivo.
Mas há pessoas que dizem poder medir a qualidade de um livro. Os sábios dizem que a qualidade de um livro costuma ser proporcional à quantidade de significados contidos no texto. E quanto melhor é o leitor mais ele apreende os significados do livro, mais ele é capaz de penetrar os mistérios de cada palavra. Um bom leitor pode transformar um livro de baixa qualidade em algo rico, assim como um mau leitor, toldado por preconceitos, pode fazer exatamente o contrário, tornar um bom livro tão plano quanto a sua própria mente.
A leitura de um livro de ficção se dá em infinitos níveis, e processos acontecem ao mesmo tempo, em intensidade que varia de leitor para leitor. Há a leitura da trama, que costuma ser a mais superficial, em que se acompanham as ocorrências, os fatos, as descrições. Há leitores que se resumem a isso.

Mas outros observam o comportamento humano, e o próprio comportamento, realizando uma leitura da própria vida, pois os exemplos da vida dos personagens fazem surgir memórias de fatos semelhantes acontecidos na vida do leitor. É a leitura da memória pessoal. Há a leitura da imaginação, dos sentimentos dos personagens e do autor, da linguagem, a leitura gramatical, das formas narrativas, da estrutura, da biografia, da alma, do ritmo, da cadência, da sonoridade, das pausas e silêncios, da melodia, das palavras em si, de sua organização, do sentido estético, da ética, da política, da realidade, do sonho, das fronteiras, da ideologia, a leitura filosófica, moral, de crença e fé, a da história humana, a leitura da literatura que traz toda a história do espírito humano, e uma infinidade de leituras, quase todas inconscientes, profundas. Assim, cada leitura pode ser uma aula, para o bom aprendiz. Por isso é bom lermos um livro com o espírito aberto.


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