sábado, 31 de maio de 2014

Um Mês de Saudade de Nilto Maciel


Um mês se passou, foi em 30 de abril de 2014, desde que chegou a Palma e ao mundo adjacente a notícia do encantamento do escritor e guerreiro de Monte-Mor Nilto Maciel.
Muito se falou sobre isso. Como as pessoas, muitas delas, não o conheciam além das fronteiras de páginas de suas obras, deram a pensar em um certeiro suicídio, pois era escritor e morava sozinho, como se esses elementos se bastassem para justificar o ato.
Outros pensaram e até comentaram sobre a negligência da família em "largar" aquele "grande escritor" sozinho, à própria sorte, o que deixou a sua família, naturalmente já desolada com a perda e a forma inesperada como se deu, ainda mais abalada.
Quero, então, aproveitar o momento para dizer o que digo a todos:
Nilto Maciel foi um afortunado. Viveu como escolheu viver. Mesmo com a insistência da família em levá-lo a Brasília, onde a esposa e a maior parte das filhas (são quatro) residiam, ele OPTOU em ficar no Ceará, terra onde foi gerado, inclusive literariamente, onde reconhecia seu chão. Morava só, porque precisava da solidão para compor, a qualquer tempo e hora, o que quisesse, não estando preso a nenhum compromisso doméstico, ou a coisa alguma. Rejeitou a proposta da família de ter uma doméstica em casa, pelo mesmo motivo. Assim como também recebia a poucas pessoas, e o fazia quando elas traziam conversas sobre literatura, seu mundo particular. Mesmo dessa forma, geralmente, não gostava de "visitas surpresa".
Costumava dizer que, por vezes, sentia um comichão de ver pessoas (por isso era encontrado tomando cafés e comendo tapiocas em shoppings centers, quando aproveitava para realizar suas operações financeiras), mas logo era tomado de uma "saudade de si" e corria para a sua casa.
Para quem não sabe, saía pouco à noite, não bebia nem fumava há anos, sua alimentação era regrada e não fugia dos horários. Dizia não sair à noite para não esquecer de tomar seus medicamentos (não gostava quando a diarista mexia nos remédios e trocava as caixas de lugar, pois tinha medo de tomar remédio por engano) e, nas últimas semanas, estava comemorando: sua médica o havia elogiado pelos resultados dos exames de rotina. Ele, como sempre, respondia: "E a senhora está achando que foi de graça, é? Tenho me esforçado bastante!"
A seguir, alguns trechos de e-mails de abril de 2014, que mostram que o amigo Nilto estava numa fase ótima, entusiasmado em abrir o evento de literatura fantástica em Sobral, muito feliz com seus últimos lançamentos, cheio de ideias e de planos para o futuro (já havia encomendado mais duas coletâneas de artigos, planejava mais uma Fortuna Crítica, além da reedição de A Rosa Gótica e de inéditos), que a sua família, felizmente para todos nós, contribuirá para concretizar-se.

"Na verdade, sempre pensei em ser vagabundo (desde menino). Era meu sonho. Mas não consigo viver sem fazer nada. Vejo as pessoas rezando, fazendo crochê, vendo TV, passeando pelas ruas, sentadas nos bancos, sem nada a fazer, tristes. E é verdade, elas não sabem mesmo o que fazer da vida, do tempo. Tenho muita pena delas. Mas eu não sou assim. Estou sempre muito ocupado, a cabeça fervilhando de ideias para livros." (Nilto Maciel, sobre a sua correria do dia a dia)

"A Literatura é cachaça que não faz mal. Abraço de um cachaceiro viciado desde menino e que vem se mantendo vivo por isso." (Nilto Maciel, para um leitor)

"Se pudesse, viajaria até Brasília. Mas com medo de avião (agora tenho mais, depois de saber de mortes ocultadas de passageiros com problemas de coração, em voos).
Não quero morrer no ar. Não quero na terra. Não quero morrer na água. Não é justo morrer, como dizia Gabriel García Márquez [morto em 17 de abril de 2014]. Tenho tanto a pensar, a escrever, a ler, a viver!" (dia 21 de abril, menos de 10 dias de sua passagem)

Biobliografia Breve

Nilto Fernando Maciel nasceu em Baturité, Ceará, em 1945.
Ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará em 1970. Criou, em 76, com outros escritores, a revista O Saco. Mudou-se para Brasília em 1977, tendo trabalhado na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF, ano em que organizou, com Glauco Mattoso, Queda de Braço – Uma Antologia do Conto Marginal (Rio de Janeiro/Fortaleza, 1977)..
Regressou a Fortaleza em 2002. Editou a Literatura: revista do escritor brasileiro, de 1992 a 2008.
Obteve primeiro lugar em alguns concursos literários nacionais e estaduais: Secretaria de Cultura e Desporto do Ceará, 1981, com o livro de contos Tempos de Mula Preta; Secretaria de Cultura e Desporto do Ceará, 1986, com o livro de contos Punhalzinho Cravado de Ódio; “Brasília de Literatura”, 1990, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Distrito Federal, com A Última Noite de Helena; “Graciliano Ramos”, 92/93, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Estado de Alagoas, com Os Luzeiros do Mundo; “Cruz e Sousa”, 1996, categoria romance nacional, promovido pelo Governo do Estado de Santa Catarina, com A Rosa Gótica; VI Prêmio Literário Cidade de Fortaleza, 1996, Fundação Cultural de Fortaleza, CE, com o conto “Apontamentos Para Um Ensaio”; “Bolsa Brasília de Produção Literária”, 1998, categoria conto, com o livro Pescoço de Girafa na Poeira; "Eça de Queiroz", 1999, categoria novela, União Brasileira de Escritores, Rio de Janeiro, com o livro Vasto Abismo, além do Edital de Incentivo às Artes da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, com Luz Vermelha que se Azula e A Fina Areia das Dunas (último livro de contos, no prelo, pelo Armazém da Cultura).
Participa de diversas coletâneas, entre elas Quartas Histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa, org. por Rinaldo de Fernandes (Ed. Garamond, Rio de Janeiro, 2006); 15 Cuentos Brasileros/15 Contos Brasileiros, edición bilingüe español-português, org. por Nelson de Oliveira e tradução de Federico Lavezzo (Córdoba, Argentina, Editorial Comunicarte, 2007); Capitu Mandou Flores, org. por Rinaldo de Fernandes (Geração Editorial, São Paulo, 2008), "O Cravo Roxo do Diabo": o conto fantástico no Ceará, org. Pedro Salgueiro (Expressão Gráfica, Fortaleza, 2011) e Sonetos de Bolso: antologia poética, org. por Jarbas Júnior e João Carlos Taveira (Thesaurus Editora, Brasília, 2013), dentre outros.
Publicou estudos sobre o conto cearense, dentre eles Contistas do Ceará: d'A Quinzena ao CAOS Portátil (1998), referência para pesquisa no gênero. Deixou incompleta a pesquisa Notícia da Literatura Cearense, recorte entre o período do Clã até os dias atuais.
O romance O Cabra que Virou Bode (1991) foi transposto para a tela pelo cineasta Clébio Ribeiro, em 1993.
Os Guerreiros de Monte-Mor, com 2ª edição pelo Armazém da Cultura (a primeira é da editora Contexto, de São Paulo), foi um dos contemplados no Edital do Programa Nacional Biblioteca Escolar.
Publicou ainda, coletânea de crônicas, Menos Vivi do que Fiei Palavras (Penalux, 2012), e de artigos e resenhas, como Gregotins de Desaprendiz (Bestiário, 2013) e Sôbolas Manhãs (Bestiário, 2014), e um autobiográfico/memórias, Quintal dos Dias (Bestiário, 2013).
Tem contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês.



4 comentários:

  1. Parabéns Raymundo Netto pelo belíssimo texto, uma merecida homenagem ao grande escritor Nilto Maciel.

    ResponderExcluir
  2. Obrigada pelas lindas palavras! Muita saudade pra sempre :(

    ResponderExcluir