sexta-feira, 21 de julho de 2017

Programação Geral FRESTA LITERÁRIA, dias 22 e 23 de julho (Praça dos Leões)


A Praça dos Leões, no centro de Fortaleza, será o cenário para a realização da Fresta Literária 2017: A Palavra e a Cidade, promovida pelo Coletivo Alumiar e Revista Berro. O evento será realizado de 22 a 23 de julho, a partir das 14hs, no salão do Lion’s Bar.
A Fresta ocupará uma parte da Praça dos Leões com poesias, expositores de livros e de produtos ligados à literatura, dando preferência às produções independentes, com espaços horizontais e democráticos para apresentação de artistas e coletivos com trabalhos autônomos.
Os bate-papos e encontros serão gratuitos, puxados pela temática da literatura e flexíveis ao diálogo com outras linguagens, trazendo à tona a diversidade da produção literária e os diálogos que ela pode possibilitar com a cidade.
“A Fresta se dará através da arte do encontro; na rua, nos botecos, praças, como mais um evento de resistência à mercantilização da vida e bênção à memória e a palavra, elementos, para nós, fundamentais na composição do nosso imaginário de cidade; lugar de encontros, circulação de saberes e encantamento da vida”, destaca Alexandre Greco do Coletivo Alumiar.

Sábado. 22/07
Exposições /Vendas de Livros (a partir das 14h)
Mesas. Espaço Lions Bar
14h - A poesia que persiste no escuro – Renato Pessoa, Nina Rizzi e Jardson Remido.
15h - O cronista e o labor cotidiano de inventar frestas – Iana Soares, Demitri Tulio e José Anderson Freire Sandes.
16h – Intervenção: Poesia.CE – Mardônio França
16h20 - Leitoras Públicas: diversas vozes para diversas literaturas – Talles Azigon, Sara Síntique, Tetê Macambira, Nina Rizzi e Ayla Andrade
17h20 – Nóis do Teatro
17h50 - Mate-me logo, à tarde, às seis… – Ricardo Kelmer e Alan Mendonça
18h50 – Roda de Poesia – Pedro Bomba
20h – Uirá dos Reis
21h – Sapoti Soundz

Domingo. 23/07
Exposições /Vendas de Livros (a partir das 14h)
Espaço Lions Bar
14h  - Do Estoril ao Cais Bar: o andar do bêbado – Romeu Duarte
15h - Cartografia Amorosa de Fortaleza – Júlio Lira e Fernanda Meireles
15h20 – Sarau Poético - grupo Corpo sem Órgãos
16h - Mário Gomes e seu teto de estrelas – Ethel de Paula
16h30 - Poetas pelas ruas do Centro: Mário Gomes, Érickson Luna e Miró da Muribeca – Experiências urbanas e poesia em Fortaleza e Recife – André Telles do Rosário
17h – Crônicas Absurdas das Cidades – Raymundo Netto e Mailson Furtado (a 2ª edição de “Crônicas Absurdas de Segunda”, obra premiada pela Secult e finalista do Prêmio Jabuti 2016, estará disponível à venda durante o evento).
18h - Entre chamas e espinhos: distopias e perspectivas nas cidades – Dilson Lages e Airton Uchoa Neto
19h Paulo Branco (música)

Mais Informações:
www.facebook.com/LiterariaFresta/



segunda-feira, 17 de julho de 2017

A Fundação Demócrito Rocha no Prêmio HQMIX


O Curso Básico de Histórias em Quadrinhos e a Antologia HQ, ambos projetos da Fundação Demócrito Rocha (FDR), são finalistas do Prêmio HQMIX, o “Oscar dos quadrinhos brasileiros”, organizado pela Associação dos Cartunistas do Brasil e pelo Instituto do Memorial de Artes Gráficas do Brasil.
As duas ações integraram o projeto HQ Ceará 2016, uma parceria da Fundação Demócrito Rocha – por meio da Universidade Aberta do Nordeste (Uane) – com a Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (SecultFOR), e que contou, além das referidas ações, com 9 cursos/oficinas presenciais, 2 palestras (com representações do segmento e com o editor da Draco, Raphael Fernandes), 2 shows temáticos (banda Hattori Hanzo), 1 documentário e 1 exposição.
O Curso de Histórias em Quadrinhos, gratuito e com 120h (composto por 12 fascículos e 12 videoaulas), concorre na categoria “livro Técnico”, sendo o primeiro curso a distância de quadrinhos no país e alcançando a marca de 6.188 inscritos em todos os estados brasileiros (com exceção do Acre). A obra, cuja coordenação editorial e preparação de originais é de Raymundo Netto, a de conteúdo é de Daniel Brandão e as ilustrações de Guabiras, contou com os seguintes autores: Daniel Brandão, Raymundo Netto, Zé Wellington, Ricardo Jorge, J.J. Marreiro, Thyago Cabral, João Belo Jr, Julio Belo, Jean Sinclair, Lene Chaves, Weaver Lima, Débora Santos, Sirlanney, Luís Carlos Sousa, Mano Araújo, Rafael Dantas, Dharilya, Robson Albuquerque, Fernando Lima, Talles Rodrigues e Pedro PJ Brandão.
A Antologia HQ, que concorre em 2 categorias, “Publicação Mix” e “Edição Especial Nacional”, foi organizada por Daniel Brandão, reunindo 32 (trinta e dois) quadrinistas dos mais diversos estilos: Fernando Lima, Jean Sinclair, J.J. Marreiro, Pedro Brandão, Brendda Lima, Dharilya, João Belo Jr, Heron, Karlson Gracie, Luís Carlos Sousa, Nath Garcia, Marcus Rosado, Rafael Dantas, Sirlanney, Cristiano Lopez, Denilson Albano, Guabiras, Lene, Lincoln Souza, Lucas Pascoal, Mano Araújo, Robério Leandro, Rodrigo Matos, Thyago Cabral, Walber Feijó, Daniel Brandão, Júlia Pinto, Lucas Rebelo, Ramon Cavalcante, Rod Mendez e Weaver.
Ambos projetos gráficos tiveram origem no Núcleo de Design Editorial (NDE) da FDR, composto por Amaurício Cortez, Welton Travassos e Karlson Gracie, além da edição eletrônica de Cristiane Frota.
O Curso teve a administração da Universidade Aberta do Nordeste (Uane), que já atendeu a mais de 1 milhão de cursistas no país em 34 anos de existência, sendo hoje coordenado por Ana Paula Costa Salmin, com assessoria técnica de Joel Bruno.
O documentário, A História das HQs no Ceará, longa-metragem (1h25 de duração), será lançado em breve, com ampla divulgação pela imprensa e redes sociais.
A Fundação Demócrito Rocha, que teve a honra e o prazer de realizar todas essas ações, gerando um movimento pouco frequente em nosso estado em torno das HQs, no desejo de contribuir para a formação e o fomento do debate de empreendedorismo entre os profissionais das cadeias criativa e produtiva das HQs no Ceará, conferindo-lhe visibilidade e colaborando para o fortalecimento do mercado cultural, gerando trabalho e renda e incentivando o gosto pela leitura, fruição e produção de HQs, provocou e assistiu à instituição do Dia Estadual dos Quadrinhos no Ceará, 28 de setembro (em homenagem ao desenhista Luiz Sá), Lei nº 16.170, de autoria do deputado Renato Roseno, decerto uma conquista para o segmento.

Agradecemos à Prefeitura de Fortaleza que, por intermédio da Secretaria Municipal da Cultura, acreditou e investiu na proposta. Em especial, a Paola Braga, secretária executiva da SecultFOR.
Enfim, agradecemos a todos que fizeram e fazem parte dessa história, não apenas como autores, facilitadores, designers, ilustradores, convidados, captadores de recursos, gerentes, diretores, jornalistas, assessores, divulgadores, equipe da controladoria, do financeiro e da prestação de contas, das estratégias digitais, mas também aos produtores, aqueles que trabalham por trás das câmeras, do palco, das campanhas das agências, das cortinas, mas que contribuíram sobremaneira para garantir o sucesso desse empreendimento.
A todos, o nosso mais sincero obrigado e parabéns.


sábado, 15 de julho de 2017

"País sem Povo nem Futuro", de Raymundo Netto para O POVO


O Brasil, enquanto país, enquanto povo, não existe. Uma piada, uma melopeia, uma paródia. Saqueado, de(s)cantado e mal influenciado, desde que as invasoras e xenófobas naus cabralinas trouxeram  a sua má influência e a sífilis, tem a tradição de sujeitar-se e render loas a quem lhe prega cravos na palma da mão. Os que detém o poder calam, arruínam, escravizam e extinguem, pelos meios possíveis, mais frios e cruéis – mesmo quando por expedientes divinos –, aqueles que contestam a tirania, a vilania, a ambição e a sua exploração. Esse poder tupiniquim, o mais covarde, conseguido à custa do berro, da força, da extorsão do trabalho e da vida alheios, por meio de corrupção, roubo, contrabando, sonegação, agiotagem e que se perpetua na escola colonial, regida por dirigentes e empresários analfabetos, rudes e desumanos, a usar e lambuzar-se, em proveito próprio e dos seus, do que chamamos de leis e de autoridades. Eles sabem que tais leis e que tais poderes, pela mesma “força da grana que ergue e destrói coisas belas”, lavam com a língua as solas de seus sapatos, enquanto da mesma boca lançam as presas contra os desvalidos, “os pobres nas filas, nas vilas, favelas”, sugando-lhe a alegria, a virtude, a dignidade e a esperança.
Com a história desenhada por pouca vergonha e muito mau-caratismo, cercados de ruínas, mentiras e podridão, nos acenam e encenam o projeto de uma sociedade justa, livre e igualitária, enquanto se vestem da democracia fraudulenta e competente apenas na promoção da desigualdade social, da injustiça e da concentração de renda.
A ordem e o progresso desse país sempre vieram pela chibata, oprimindo o povo em currais, morros e periferias, massacrado pela ausência de cultura, por uma oferta de baixa educação e excesso de novelas, ludibriado por discursos chinfrins e inverossímeis, cargos de prefeitura, vagas em secretarias, pererecas e/ou tijolos. Os demais, aqueles ainda conscientes de que o poder deveria emanar do povo, insistem em manifestações tão pacíficas, beirando um Carnaval ou desfile colegial, não fazendo sequer cócegas neste governo sem moral nem credibilidade. Afinal, o que esperar do exangue judiciário e do supérfluo tribunal FEDEral, uma rapariga cega cuja lâmina só é afiada quando apontada a serviço desse poder contra os mais fracos ou seus opositores políticos? E do Congresso Nacional, cheirando a gasolina e a churrasco, hoje, a maior representação da criminalidade do país? E o pior: nós ainda permitimos que esses canalhas, em nome da pseudodemocracia – os partidos políticos são o maior fracasso desse processo –, decidam o nosso futuro, enquanto essa malta de caretas engravatados e togados, protegida pelas forças repressoras pagas por nós, zomba e esbanja as riquezas do país, se apropriando delas, comprando espaços de TV e globais para as festas particulares, se mostrando em capas de revistas e em colunas sociais, embriagando-se, consumindo drogas, joias, bolsas, silicones e outros acessórios pelo mundo e restaurantes afora, pois aqui se garante a impunidade, a malsonância do código legal, a venda da dignidade por esmolas do cada um por si.
Os que detém a riqueza hoje estão no poder, numa correria de navio afundando, garantindo as suas imorais conquistas, que chamam de reformas, entre outras manobras anticidadãs, em nome do povo e contra o povo.

E nós, até quando? Até quando?


domingo, 9 de julho de 2017

"Viva (e não morra) o Centro", de Raymundo Netto para o "Jornal Viva o Centro Fortaleza"


Não gosto nem entendo quando pessoas tomadas apenas por boa-intenção, mas com péssimo argumento e vivência, afirmam “ninguém mais vai ao Centro” ou “temos que vitalizá-lo”. Ora, o que não falta ao Centro é vida! Porém, é certo, deixado de lado pela pirotecnia do “novo”, do imediatismo, do consumismo e pelo deslumbre midiático que embaça a relevância da própria identidade, o nosso Centro Histórico carece há anos de governantes que, com a participação efetiva da comunidade, o insira no planejamento global da cidade, promovendo-o, conferindo-lhe a devida visibilidade, reconhecendo e preservando os seus bens culturais, materiais e simbólicos, mesmo daqueles esquecidos e em estado de deterioração, mas que ainda nos murmuram o desenrolar essencial da nossa formação enquanto cidade e enquanto povo. Aliás, nós, povo fortalezense, somos os maiores culpados por este descaso. Não poderíamos dar as costas ao nosso berço, o marco inaugural de nosso desenvolvimento, das atividades artísticas, econômicas, administrativas e todas as demais que nos fizeram chegar até aqui e ser o que somos.
Pergunto-me há anos: como despertar nos cidadãos a percepção de pertencimento desse valoroso espaço urbano? Como fazê-los reconhecer e se apropriar dos marcos afetivos, históricos e estéticos que dizem da sua cidade e da sua história? Como pintar em seus corações a paixão e os elementos indispensáveis de resistência ao esvaziamento do imaginário e da memória histórica e identitária?
Vejo no Centro, não apenas o valor afetivo, mas de fruição. Contudo, parece-me ser ele uma cidade desconhecida, quase como submersa, assistida de perto apenas pelos escafandristas – historiadores, memorialistas, curiosos e cronistas –, com riquezas a se decompor aos poucos, a se aniquilarem e a se descaracterizarem pela erosão natural do tempo e pela incompetência e passividade desses filhos ingratos, cegos ao passado e à sua origem.
Ora, não existirá uma administração a se deter à causa, se os cidadãos não a abraçam, não a elegem. Já nos foi provado que não planejar uma transformação no macroespaço, mas apenas resguardar alguns exemplos pontuais, monumentos, áreas ou edificações específicas (Theatro José de Alencar e Carlos Câmara, Casa de Juvenal Galeno, Cine São Luiz, Sobrado Dr. José Lourenço, praça dos Leões, Passeio Público, entre outros) não muda a realidade. Pelo contrário, acabamos por condenar esses equipamentos a serem subutilizados – por ora não falemos do descompasso governamental crônico pelo fomento deles –, tratados quase como uma herança ruim, um oásis na aridez de um deserto.
Feliz do bairro por ainda contar com uma vocação comercial natural, fazendo com que os lojistas – mesmo quando mal orientados e pouco estimulados – mantenham a tradição do comércio de rua, assegurando a vida, o olhar a esse ponto da cidade, a manutenção dos costumes e tradições fortemente representados ainda no Centro, mais do que em qualquer lugar de nossa cidade que, se um dia foi loura, hoje se encontra numa veloz e crescente perda de cabelos.
Por isso, tomemos para nós: a preservação e a requalificação do Centro Histórico de Fortaleza e o seu destino cabem principalmente à decisão e à mobilização do povo fortalezense.
Viva o Centro!

Publicado originalmente em jornal "Viva o Centro Fortaleza", Ano I, nº 2 - julho de 2017
Editores: Paulo Probo e Silvana Figueirêdo
Contato: vivaocentrofortaleza@gmail.com




sexta-feira, 7 de julho de 2017

Projeto VIVA O CENTRO: dia 8 de julho, sábado, das 8 às 18h

Foto: Nely Rosa

O projeto Viva o Centro Fortaleza promove, neste sábado, 8 de julho, das 8 às 18h, uma série de atividades no Parque da Liberdade, também conhecido como “Cidade da Criança”, no centro da cidade.
A ação tem o objetivo de valorizar o Centro sob o aspecto cultural.

Confira a programação completa:
Parque da Liberdade (Cidade da Criança)
8h - Café da manhã com música ao vivo
9h - Roda de conversa: Visão da população de rua sobre o Centro de Fortaleza (Brennand de Sousa - Professor de Arquitetura da Unifor e Escola de Saúde Pública);
11h - Lançamento de mais uma edição do jornal Viva O Centro
11h40 - Apresentação Musical (Elpídio Nogueira e convidados)
14h - Visita Guiada pelo Parque da Liberdade com a Associação dos Guias Integrados ao Turismo Rodoviário (AGIR)
15h - Roda de conversa: Literatura e Cidade (Mileide Flores, Raymundo Netto e Weaver Lima)
16h - Meditação em grupo (Awaken Love)
17h - Piquenique compartilhado (Cada participante traz um alimento a ser compartilhado entre todos)

18h - Exibição do curta metragem "Da janela lateral" de Natercia Rocha.


quarta-feira, 28 de junho de 2017

"Ao Balanço da Leitura Brasileira", de João Soares Neto


“Os leitores são os meus vampiros”.
 Ítalo Calvino

Semana passada, escrevi sobre a baixa remuneração dos professores e a consequência disso no fraco aprendizado do brasileiro. Hoje, vou repassar para vocês as informações que a Câmara Brasileira do Livro, a Fundação de Pesquisas Econômicas, o Ibope Inteligência, o Instituto Pró-Livro e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros tornaram públicas na edição do dia 02 deste junho do Caderno Eu&Fim de Semana, do Valor.
Foram lançados 51.819 livros em 2016, menos 1,16% do que os 52.427 publicados em 2015. De qualquer forma, são 427,2 milhões de exemplares. O total das vendas desses exemplares corresponde a 5,27 bilhões de reais. É um número razoável, não fosse a quantidade de brasileiros aptos a comprar um livro e não o fazem. Desses 5,27 bilhões foram gastos 1, 40 bilhões de reais em aquisição pela administração pública federal, estadual e municipal.
Nesse trabalho está dito que 56% dos brasileiros admitem ser leitores. Indagados se gosta gostam de ler, as respostas foram: 30% gostam muito, 4% não sabem ler, 23% não gostam de ler e 43% admitem que gostam um pouco. Indagados se compraram um livro nos últimos três meses, 26% afirmam ter adquirido. Enquanto isso, 74% disseram que não.
O que parece ir ficando claro é o provável desapego da maioria dos brasileiros pelo hábito da leitura, pois 30% nunca compraram um livro sequer. Por outro lado, neutralizando o fato, 31% afirmam que compraram um livro nos últimos três meses, enquanto 6% dizem que o fizeram nos últimos seis meses.
Os que leem são influenciados pelos fatores a seguir: assunto(30%), dicas de terceiros(11%) autor(12 %), título (11%), capa(11%), dicas de professores(7%), críticas ou resenhas(5%), publicidade(2%), editora(2%), redes sociais(1%), outro(1%) e 8% não sabem ou não responderam.
Sei que ler números não é prazeroso para muita gente. Todavia, os que compram livros, influenciados pelos fatores acima, necessariamente, não concluem as suas leituras, mas isso não foi levantado pelos que compõem o mercado editorial brasileiro que está em crise. Comprar não significa ler.
O que me alegrou foi o fato do Nordeste possuir 26,2 milhões de leitores que são comparados por 25% da população. No Sul, ao contrário, só há 13,7 milhões de leitores.  O Sudeste fica com 48,3 milhões de leitores, enquanto o Centro-Oeste conta apenas 8 milhões de leitores, o mesmo número que a região Norte. Como se vê, apesar de não termos grandes editoras, ficamos em segundo lugar, leitores, perdendo apenas para a região Sudeste.
De tudo o que foi enumerado e dito, conclui-se que estamos um passo atrás dos leitores europeus. Ora direis, eles têm tradição em leitura. Por essa razão é que devemos tentar ultrapassá-los. Em outra fonte, fica claro que a Bíblia é, bem longe dos demais, o livro mais lido ou consultado do planeta Terra apesar dos cristãos não serem, longe, a maioria, dos habitantes.
Vou ficando por aqui. Não poderia deixar de dizer, mais uma vez, que esta semana é crucial para o Brasil, o país das crises ininterruptas. Os brasileiros estão todos ressabiados e crentes que um milagre aconteça. Afinal, Deus é brasileiro e o Papa é “hermano” argentino.






sexta-feira, 23 de junho de 2017

"Os Pobres Diabos": o drama e o circo, de Raymundo Netto para O POVO


“E o palhaço o que é? É ladrão de mulher!!!!”, clama à corneta um Daniel Diaz sobre pernas de pau cambaleantes e sob a pele de um desromântico palhaço Pororoca – para nós, os palhaços e o circo foram muito ilustrados pelo cronista Ciro Colares –, assediado por crianças curiosas e ao som do tambor de Meio Quilo, personagem de Sâmia Bittencourt, composta em delicadeza imagética e ambígua – era um palhaço ou uma palhaça? –, nas ruas quentes e luminosas do povoado aracatiense, anunciando não Os Pobres Diabos, mas, sim, o Circo, que sempre foi e sempre será “o maior espetáculo da Terra”.
O longa, cuja direção e roteiro são de Rosemberg Cariry, é uma clara e reflexiva homenagem aos artistas circenses – ou à sua capacidade de sobrevivência – que ainda hoje transpõem as porteiras e veredas das cidades mais esquecidas e carroçáveis do interior nordestino a comungarem a sua arte. No centro das atenções: o Gran Circo Teatro Americano! Muito feliz a alusão à “Santa Ceia”, onde o milagre da multiplicação do pão pode não acontecer amanhã. Protesto poético pela forma como se faz e promove a arte no país: de pires na mão, joelho ralado e mostrando os fundos, sem saber se amanhã o show continua. E o que é pior: sem público e sem aplauso!
Inevitável – penso que não apenas para mim –, diante da grandeza do tema, trazer ao picadeiro outros filmes cuja mágica nos cirquearam um dia, como: O Circo (1928), de Charles Chaplin – o maior de todos, o fura-bolo e o cata-piolho, tudo junto –, O Rei do Circo (1954), com Jerry Lewis, Bye Bye Brasil (1979), de Cacá Diegues – uma delícia a história da famigerada “Caravana Rolidei”, película que conquistou o ingresso na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, da Associação Brasileira de Críticos de Cinema –, Os Saltimbancos Trapalhões (1981), de JB Tanko, e O Palhaço (2011), de Selton Mello  – no qual o ator interpreta o palhaço Pangaré a contracenar com o grande Paulo José, o palhaço Puro Sangue. No filme, a participação engraçadíssima de Moacir Franco.
No elenco de Os Pobres Diabos: Sílvia Buarque, no papel de Creuza de Guadalajara – sem dúvida, uma nova versão de “Salomé”, personagem de Betty Faria em Bye, Bye Brasil –, uma cantora e dançarina de rumba, mãe da menina Izaura – o futuro do Circo –, infeliz com as condições precárias impostas pela vida. É casada com Zeferino, vivido por Gero Camilo, sua primeira participação em longa-metragem na terrinha natal, que apesar de demonstrar ciúmes dos galanteios de Lazarino (Chico Diaz) para a sua amada – algumas das sequências mais humoradas do filme são provocadas pelo triângulo amoroso –, nos parece mais apegado à cabra Genoveva, que é quem garante o seu leitinho “milagroso”. Zezita Matos, que recentemente protagonizou o surreal Mãe e Filha, de Petrus Cariry, interpreta a irmã de Arnaldo, o proprietário (Everaldo Pontes), aquele que diz acreditar que a arte é capaz de vencer a tudo. Com a arte e muita paciência... Daí, na trilha sonora, surge em meio à lona velha, remendada, às gambiarras naturais da itinerância e do nomadismo frequente, principalmente sob o escaldar do sol intolerante, a melancólica canção de Gardel: “El Día que me Quieras”. Fantásticos o clima de realismo do filme e as sequências de ”bastidores”.
Ganhador do Prêmio de Melhor Filme, pelo júri popular, e Prêmio TV Brasil do Festival de Brasília, Os Pobres Diabos apresenta uma fotografia, direção de arte, figurino e cenografia deslumbrantes. O elenco se expressa notadamente teatral, acentuado, naturalmente, na encenação do drama da crise no inferno, no qual todos daquela família circense assumem um papel à luz mais do que legítima da boa literatura de cordel. Nos princípios do circo brasileiro, uma de suas maiores atrações era a representação de dramas, coisa que a Associação dos Proprietários, Artistas e Escolas de Circo do Ceará (Apaece) já vem há algum tempo tentando resgatar. Textos adaptados do romanceiro e da tradição popular, provocantes de lágrimas e/ou gargalhadas. Sucesso para garantir o reingresso do público.
Por ser obra de Rosemberg, contista, poeta, cineasta, pesquisador e promotor da tradição popular nordestina, não poderia dar em outra: cinema, literatura, teatro e resgate. Aliás, em Os Pobres Diabos, assim como as demais produções da Cariri Filmes, o resultado é uma estética autoral de cinema independente, de experimentação (com licença ao improviso), de construção de linguagem, ambientada no espaço do regional e conferindo visibilidade à cultura do povo nordestino.
Vida longa ao Gran Circo d'Os Pobres Diabos, e que se abanque nos melhores cinemas do Brasil.

Atenção:
Estreia nos cinemas no dia 6 de julho de 2017.

Assista ao trailer oficial
https://www.youtube.com/watch?v=oWU4tgxHEuo

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sábado, 3 de junho de 2017

"Adolfo Caminha: 150 anos", de Sânzio de Azevedo para O POVO

Ilustração: Carlus Campos

       Temos um sesquicentenário: Adolfo Caminha, que nasceu no Aracati em 29 de maio de 1867, honra as letras de sua terra, e veio a falecer no Rio de Janeiro em 1º de janeiro de 1897, portanto antes de completar trinta anos de idade.
       Notável ficcionista, dois livros seus, A Normalista (1893) e Bom-Crioulo (1895), garantem sua presença na literatura brasileira.
       Foi oficial da Marinha, fez parte do Centro Republicano do Ceará e, apesar de ter tido uma polêmica com Antônio Sales, foi convidado por Sales para ser um dos membros da Padaria Espiritual, o mais original dos grêmios cearenses do século XIX. No jornal do grupo, O Pão, escrevia a secção “Sabatina” com o nome de guerra Félix Guanabarino.
       Mas antes disso foi protagonista de um escândalo, ao se ligar a uma mulher que o amava, mas que era casada, e com um alferes do Exército. Depois de idas e vindas, como seus superiores quisessem mandá-lo à Europa, decidiu se demitir e foi ser funcionário do Tesouro.
       Começou romântico na literatura, mas seu primeiro romance, A Normalista (1893), é obra naturalista, como o segundo, Bom-Crioulo (1895), tendo este último sido traduzido para o inglês, o francês, o alemão, o turco e não sei mais quais idiomas...        
       Para dar uma ideia de sua prosa, leiamos o início d’A Normalista: “João Maciel da Mata Gadelha, conhecido em Fortaleza por João da Mata, habitava, havia anos, no Trilho, uma casinhola de porta e janela, cor d’açafrão, com a frente encardida pela fuligem das locomotivas que diariamente cruzavam defronte, e donde se avistava a Estação da linha férrea de Baturité.”  
       Várias edições desse livro foram publicadas com alterações indevidas, mas, com a ajuda do saudoso José Bonifácio Câmara, pude preparar em 1998 uma edição com base na primeira, de 1893.
       Aliás, o Armazém da Cultura, dirigido por Albanisa Lúcia Dummar Pontes, está editando esse livro, assim como a 3ª edição de Adolfo Caminha: vida e obra, escrito por mim em homenagem a esse escritor, que é o Patrono da Cadeira nº 1, que tenho a honra de ocupar na Academia Cearense de Letras.
       O escritor publicou ainda um livro de viagem, No País do Ianques (1894) e um de crítica, Cartas literárias (1895). Após sua morte saiu, com a data de 1896, Tentação, seu último romance.
       Graças a Ítalo Gurgel, a Coleção Nordestina publicou, pela UFC, a 2ª edição das Cartas literárias (1999) e o livro Contos (2002), com onze narrativas do escritor.

Sânzio de Azevedo
Doutor em Letras pela UFRJ;

membro da Academia Cearense de Letras



O Ficcionista Escandaloso: Adolfo Caminha, de Raymundo Netto para O POVO


O professor Sânzio de Azevedo, em suas “Palavras Prévias” à biografia Adolfo Caminha: vida e obra*, observa: “Poucas são as vidas de romancistas do Realismo brasileiro que se relacionem estreitamente com a sua obra ficcional. Uma delas é a de Adolfo Caminha, uma existência breve e ao mesmo tempo atormentada.”
Nascido há 150 anos, em Aracati, e falecido há 120, no Rio de Janeiro, Caminha alcançaria o prestígio de ser, mesmo sem ultrapassar os 30 anos de vida, e com três romances (A normalista, Bom-crioulo e Tentação – este, póstumo), um livro de viagem (No país dos ianques) e outro de crítica (Cartas Literárias), um dos maiores nomes da corrente realista-naturalista no país.
Aos 13 anos, órfão de mãe, foi levado ao Rio de Janeiro, onde iniciou-se no exercício literário escrevendo poemas para as revistas Fênix Literária e Revista Escola de Marinha. Lá, na Escola da Marinha, cometeu seu primeiro grande ato de rebeldia quando da, então recente, morte de Vitor Hugo. Convidado a discursar como representante do grêmio literário a seus colegas, autoridades da marinha e ao imperador Pedro II, ao final, bradou: “Ah, não poder ele assistir à nossa marcha triunfal para a Abolição e à República!”. Como o imperador compreendera ser aquele apenas um arroubo da mocidade, a constrangida direção deixou passar. Entretanto, também em 1885, escreveu um manifesto e recolheu assinaturas contra o tradicional “castigo da chibata”, decidido a publicá-lo em jornal, não fosse descoberta a sua intenção pela direção que novamente o repreenderia, agora cogitando a sua disciplinar expulsão, o que não aconteceria.
Em 1888, já oficial, por motivo de saúde, pediu transferência a Fortaleza. Com tanta paixão à literatura, não demorou para envolver-se e conquistar a admiração de seus pares, participando e fundando agremiações e publicando em periódicos, até que a sua “paixão” voltou-se também a jovem Isabel, o que não seria de se estranhar, não fosse ela casada, inda mais com um oficial do Exército. Uma das cenas que se destaca em sua história, é quando Isabel, após uma briga com o marido enciumado, deixa a sua casa, de braços dados, à luz do dia e de todos, com o amante, indiferente às ameaças de morte e aos receios de amigos. Caminha, mais tarde, diante das insistentes pressões de comando, acaba por pedir demissão da Marinha, em prol de assumir de vez o seu maior romance.
Em 1891, com a certeza de não existir crítica literária no Ceará, Adolfo lançaria a sua Revista Moderna. E é nela que iniciaria extensos embates com reconhecidos autores da época, como Antônio Sales – que mesmo assim o convidaria para integrar a Padaria Espiritual – e Rodolfo Teófilo, ao mesmo tempo que protestaria contra a construção da estátua de um governador falecido, o paulista Caio Prado, enquanto José de Alencar, escritor a quem o Ceará tanto devia, nunca, até então, havia recebido similar homenagem.
Em 1893, já residindo no Rio de Janeiro, lançaria A normalista: cenas do Ceará, sentida por alguns críticos como uma vingança do autor contra a “barbaria semicivilizada de uma capital provinciana”, como Araripe Júnior descreve a Fortaleza de então. Dois anos depois, O bom-crioulo, por ter como temática o homossexualismo, em pleno século XIX, como protagonista um negro e como cenário a mais antiga das Forças Armadas brasileiras, causou repulsa e a incompreensão social, a “execração pública”, como afirmou o próprio autor, vítima de “ato inquisitorial da crítica”. Curiosamente, nos anos de 1930, durante o Estado Novo, o Bom-crioulo chegou a ser confiscado sob a alegação de ser obra “comunista” e mesmo nos próximos 30 anos, renomados críticos não recomendariam a sua leitura.
Enfim, muitos são os fatos que nos comprovam a personalidade controvertida de um temperamental e abusado Adolfo Caminha, de forma que, ao mesmo tempo que demonstra em alguns momentos a presença de espírito e caráter, noutros parece não ter nenhum, entretanto, é impossível tirar-lhe o mérito de ficcionista criativo, audacioso, experimentalista, que nos legou obras que marcam seu merecido assento na literatura brasileira.

(*) Em breve, a editora Armazém da Cultura divulgará o lançamento de Adolfo Caminha: vida e obra, de Sânzio de Azevedo, revisto e atualizado, fonte de referência para o estudo sobre o personagem.




quarta-feira, 31 de maio de 2017

"As Subjetividades da Estética Amorosa" em "Quase Que", de Gylmar Chaves


Lançamento
Quase Que:
cem poemas e suas possibilidades afetivas
de Gylmar Chaves

Data e horário: 7 de junho (quarta-feira), a partir das 19h30
Local: Ideal Clube (av. Mons. Tabosa, 1381 – Meireles)
Apresentação: escritor e crítico literário Dimas Macedo
Contatos: (85) 99737-8877/98959-0171

Sobre a obra: Quase que é o título do livro de autoria do escritor Gylmar Chaves, publicado em Portugal e distribuído no Brasil, pela Chiado Editora. A obra é composta de cem poemas e suas possibilidades afetivas. Versa sobre o amor, suas afinidades, empatias, desapegos e contradições.

O livro começou a ser escrito quando o autor ainda morava no Rio de Janeiro. Com ilustração da capa feita especialmente para esta edição, pelo arquiteto Oscar Niemeyer, e design de Flávia Lamas Portela, a maioria dos poemas é resultado da pesquisa “Vamos Falar de Amor”, que Gylmar Chaves vem desenvolvendo, nos últimos anos, sobre a estética amorosa observada como potência das subjetividades. Estética essa construída em tempos históricos diversos, absorvida pelo ser humano em todos seus estágios de vida.

 A pesquisa fará parte do ciclo de palestras que o autor pretende realizar em escolas públicas e particulares da capital e interior cearense. Uma conversa fluida sobre as crenças amorosas limitantes, a cultura íntima imposta por hábitos e acordos históricos, o que pode mudar e ainda não oferecemos um nome! “(...) O amor é um ato de rebelião, uma revolta contra a razão, uma insurreição no organismo político, um motim particular (...)”, afirma a escritora Diane Ackerman.

Sobre o autor: As produções artísticas, editoriais, literárias e jornalísticas de Gylmar Chaves estão estampadas em dezenas de livros e catálogos. Autor de 21 livros, publicados por editoras locais, nacionais e estrangeiras, elaborou a concepção e coordena a Coleção Pajeú, proposta editorial que pretende reafirmar a memória material e imaterial dos bairros de nossa cidade, permeada por uma consciência cidadã e histórica.

Nos últimos anos também tem se dedicado ao projeto Literatura Cidadã, que possibilitou o autor percorrer mais de quinze mil quilômetros a partir de Fortaleza a lugares de difícil acesso localizados nas diversas regiões do Estado do Ceará, além das cidades de Olinda-PE, Exu-PE, Sousa-PB,  Niterói-RJ e São Paulo-SP, realizando assim mais de trezentas palestras sobre Bárbara de Alencar e a construção do sentimento de cidadania, constando ainda da distribuição gratuita do livro infantil (“para todas as idades”) A Invenção de Bárbara de Alencar nesses espaços de educação, com o intuito de despertar nos alunos à construção de um mundo mais solidário por meio da leitura e da partilha do conhecimento.

Depoimentos sobre o livro:
Quase Que, de Gylmar Chaves, é um livro de muitas perguntas e algumas respostas sobre a experiência das relações sentimentais. Generosa, ágil, direta, a lírica de Gylmar Chaves modula, em cem poemas, a teia de ansiedades, encantamento e dor que marcam o encontro amoroso. Uma poética para ser lida atenta e prazerosamente.
Heloísa Buarque de Hollanda

Escrever sem medos é, provavelmente, o único desafio a abraçar na literatura. Quase Que convida a um regresso à estranheza da simplicidade. Ler estes poemas é como invadir o domínio privado de um indizível em ebulição permanente, descobrir aqui e ali a pólvora e depois não poder comentar com ninguém. Afinal de contas, quem beija o outro pela metade, mente para o céu da boca. Quem beija o outro com tudo fica com o quê? Recomenda-se a leitura pela madrugada.

Patrícia Portela, escritora portuguesa

Apoio Cultural
Ideal Clube
Expressão Gráfica




domingo, 28 de maio de 2017

"Nilto Maciel", perfil biográfico por Raymundo Netto, à venda em livraria virtual




Clique na imagem para ampliar!


Para adquirir o livro (valor atual: R$ 16,90):




Não sou escritor por querer. Fui feito assim, desse jeito, como há abestados desse mesmo feitio: músicos, pintores, dançarinos, atores. Deus me quis escritor. Eu bem poderia ter sido apenas um advogado, um funcionário público, um açougueiro.
(“Confissão Pública”, Nilto Maciel, em 7 de março de 2014)

Nilto Maciel é, certamente, um dos mais fecundos, criativos e enigmáticos escritores que o Brasil já produziu. Publicou 8 romances, 8 coletâneas de contos, 8 novelas (Vasto Abismo reúne 7), 1 seleção de poemas, 3 de crônicas, 2 de artigos, resenhas e notas literárias e 2 de ensaios, além da colaboração em diversas revistas, jornais, sites, blogues e antologias, inclusive no exterior, traduzidas para o espanhol, italiano, francês e esperanto. E tanto mais faria se a vida não lhe fosse ainda tão curta.
Beirando os 70 anos, entusiasmava-se com a “nova fase”, descobria-se, explorava os recursos tecnológicos sem abandonar o método analógico e até radical de viver a sua literatura, coisa que fez incessantemente e quase em gritante silêncio – que o digam os seus diários – durante uma carreira de cerca de 40 anos respirando, urdindo e conduzindo palavras.
Embora não se tornasse um nome midiático, teria prestígio e reconhecimento de autor nacional por escritores e críticos dos mais diversos rincões brasileiros, o que pode ser constatado em A Arquitetura Verbal de Nilto Maciel, fortuna crítica organizada ao lado do amigo e poeta “risonho e carinhoso” João Carlos Taveira.
Em 2013, em meio a publicações diversas, pediu a um amigo em comum, o também escritor Pedro Salgueiro, que me sondasse para escrever a sua biografia. Como se adivinhasse, determinava-se a registrar em publicações as suas memórias, seus artigos, sua produção literária, o que pode ser facilmente comprovado pelo número e natureza das obras publicadas – a maioria por conta própria – nos dois últimos anos de existência física, principalmente em Menos Vivi do que Fiei Palavras (2012), Como me Tornei Imortal (2013) e Quintal dos Dias (2013). Não esquecendo as correções e alterações que faria em suas em suas primeiras produções por meio da publicação de Contos Reunidos I e II.
Entretanto, não conseguindo resposta, um dia, em uma de nossas conversas de sala, ao me oferecer outra Coca-Cola, diretamente me perguntou se eu o faria, e propôs “negócio”. Afinal, “ninguém conhecia a sua vida. Ninguém.” A seu modo, respondi: “Nilto, não seria melhor esperar a sua obra completa?” Ele desconversou, lançou alguma piada mordaz, de costume, acomodou-se em sua cadeira de balanço – a perna esquerda fletida e abraçada pelas mãos entrançadas –, coçou o nariz com o indicador nervoso e concluiu: “Pense nisso.” Meses mais tarde, publicaria Quintal dos Dias, uma espécie de autobiografia, como o Menos Vivi do que Fiei Palavras, na realidade, apenas recortes dos cadernos que compunham o seu diário íntimo ou pessoal, um hábito que cultivava desde a sua adolescência.
Desse modo, caros leitores, amigos ou não de Nilto Maciel, vai-se assim esse perfil biográfico muito breve e afetivo, revolvendo em especial as suas, mas também as minhas lembranças, na tentativa de apresentá-los fielmente ao sedutor personagem do homem das letras, longe de qualquer pretensão maior que não seja apenas a de provocar a quem se perceba capacitado e competente ao estudo, pesquisa e publicação de sua obra, campo vário, fértil e inexplorado.
Ao final, deixo uma trilha cronológica biobibliográfica que o próprio autor – porque os espelhos sempre nos distorcem ou enganam – teve dificuldade de traçar corretamente.
Que a literatura lhe seja justa e o silêncio, breve.

O Autor

Tahyba, 2017.