domingo, 28 de maio de 2017

"Nilto Maciel", perfil biográfico por Raymundo Netto, à venda em livraria virtual




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Para adquirir o livro (valor atual: R$ 16,90):




Não sou escritor por querer. Fui feito assim, desse jeito, como há abestados desse mesmo feitio: músicos, pintores, dançarinos, atores. Deus me quis escritor. Eu bem poderia ter sido apenas um advogado, um funcionário público, um açougueiro.
(“Confissão Pública”, Nilto Maciel, em 7 de março de 2014)

Nilto Maciel é, certamente, um dos mais fecundos, criativos e enigmáticos escritores que o Brasil já produziu. Publicou 8 romances, 8 coletâneas de contos, 8 novelas (Vasto Abismo reúne 7), 1 seleção de poemas, 3 de crônicas, 2 de artigos, resenhas e notas literárias e 2 de ensaios, além da colaboração em diversas revistas, jornais, sites, blogues e antologias, inclusive no exterior, traduzidas para o espanhol, italiano, francês e esperanto. E tanto mais faria se a vida não lhe fosse ainda tão curta.
Beirando os 70 anos, entusiasmava-se com a “nova fase”, descobria-se, explorava os recursos tecnológicos sem abandonar o método analógico e até radical de viver a sua literatura, coisa que fez incessantemente e quase em gritante silêncio – que o digam os seus diários – durante uma carreira de cerca de 40 anos respirando, urdindo e conduzindo palavras.
Embora não se tornasse um nome midiático, teria prestígio e reconhecimento de autor nacional por escritores e críticos dos mais diversos rincões brasileiros, o que pode ser constatado em A Arquitetura Verbal de Nilto Maciel, fortuna crítica organizada ao lado do amigo e poeta “risonho e carinhoso” João Carlos Taveira.
Em 2013, em meio a publicações diversas, pediu a um amigo em comum, o também escritor Pedro Salgueiro, que me sondasse para escrever a sua biografia. Como se adivinhasse, determinava-se a registrar em publicações as suas memórias, seus artigos, sua produção literária, o que pode ser facilmente comprovado pelo número e natureza das obras publicadas – a maioria por conta própria – nos dois últimos anos de existência física, principalmente em Menos Vivi do que Fiei Palavras (2012), Como me Tornei Imortal (2013) e Quintal dos Dias (2013). Não esquecendo as correções e alterações que faria em suas em suas primeiras produções por meio da publicação de Contos Reunidos I e II.
Entretanto, não conseguindo resposta, um dia, em uma de nossas conversas de sala, ao me oferecer outra Coca-Cola, diretamente me perguntou se eu o faria, e propôs “negócio”. Afinal, “ninguém conhecia a sua vida. Ninguém.” A seu modo, respondi: “Nilto, não seria melhor esperar a sua obra completa?” Ele desconversou, lançou alguma piada mordaz, de costume, acomodou-se em sua cadeira de balanço – a perna esquerda fletida e abraçada pelas mãos entrançadas –, coçou o nariz com o indicador nervoso e concluiu: “Pense nisso.” Meses mais tarde, publicaria Quintal dos Dias, uma espécie de autobiografia, como o Menos Vivi do que Fiei Palavras, na realidade, apenas recortes dos cadernos que compunham o seu diário íntimo ou pessoal, um hábito que cultivava desde a sua adolescência.
Desse modo, caros leitores, amigos ou não de Nilto Maciel, vai-se assim esse perfil biográfico muito breve e afetivo, revolvendo em especial as suas, mas também as minhas lembranças, na tentativa de apresentá-los fielmente ao sedutor personagem do homem das letras, longe de qualquer pretensão maior que não seja apenas a de provocar a quem se perceba capacitado e competente ao estudo, pesquisa e publicação de sua obra, campo vário, fértil e inexplorado.
Ao final, deixo uma trilha cronológica biobibliográfica que o próprio autor – porque os espelhos sempre nos distorcem ou enganam – teve dificuldade de traçar corretamente.
Que a literatura lhe seja justa e o silêncio, breve.

O Autor

Tahyba, 2017.


sexta-feira, 26 de maio de 2017

"Normal, Normal!", de Henrique Beltrão


Eu pensava que eu era normal. (Risos.) Normal, normal! Mas o papai, que é sabido, quero dizer, sabe muito mais que muitos lentes, me explicou que não existe isso de ser normal. E o meu filho, que é psicólogo, inteirou dizendo que, se existisse isso de normal... normal, normal ninguém seria. E minha amada, que também é psi, disse “psiu, vem cá”, fomos namorar na rede na varanda sob o luar e eu esqueci o assunto.
Porém, entre tantos, todas as vias, sabe como é a prosa na cabeça de poeta e o dia a dia da poesia: o tema voltou à baila numa mesa de bar em que eu me encontrava rezando um pai-nosso e tentando convencer o Pedro Salgueiro, o Jorge Pieiro e o Carlos Nóbrega a não bebermos naquela noite, assumindo uma postura de “voyeurs” da embriaguez alheia enquanto o Raymundo Netto e o Poeta de Meia-Tigela enchiam a lata (e meia), rompendo ambos todo prosa com a poesia da sua abstemia. Besteira minha! O Carlos Vazconcelos veio chegando e foi logo falando dum livro novo e o povo ergueu um brinde, me engabelaram e pediram em minha homenagem um tira-gosto beleza, da maior leveza, que tinha palmito, alface e eu adorei, mas não comi pra deixar pra eles enquanto saía a costelinha de porco na brasa, mora?
Foi nessa hora que um de nós caiu na besteira (vixe, eu já empreguei essa palavra no parágrafo anterior) de dizer por algum motivo etílico, “pardon”, idílico (do ponto de vista grego): “isso é normal”. Raymundo a todo o mundo (pra rimar) perguntou o que era normal, mas eu acho que ele sabia o que era. E o Pieiro piolhou, digo, piorou as coisas dizendo que as coisas e a maioria dos animais podem ser normais, mas não os seres humanos – que até desumanos conseguem ser. Faz sentido.
Vocês sabem: uma mesa com uma ruma de escritores ensina / sempre alguma divagação traz / e do primeiro que se retira jaz / a ilibada conduta posta à prova das línguas ferinas. A noite estica, o tempo faz curva, a gente pede outra e, enquanto espera partir o incauto primeiro, fala mal do garçom.
Pior que se pelo menos a Tércia Montenegro tivesse vindo... Mas não, eu fiquei ali sem saber o que calar, no meio daquele macharal feio (à exceção de mim, normalmente bonito, digo, simplesmente bonito), falando mel da vida.
Insistiram no assunto! Pra mim, até discussão tem de ser de coração. (Sou um romântico mesmo.)
Então... disse eu: como ser “conforme a norma” conforme (acho que já usei essa palavra também, mas a memória recente anda indecente) a primeira definição do dicionário? O Carlos pediu o sal e o Pedro Sal achou que era uma onda com ele e respondeu: Vaz, vais te lascar! O Poeta DMT colocou DDT na discussão e o outro Carlos nobregamente ergueu outro brinde enquanto o Netto que se chama Raymundo neste vasto mundo pedia mais duas cocas para ele e o Poeta. Eu estava ficando sóbrio.
Foi quando o dito DMT lembrou do cabra da história do compadre Jessiê Quirino que fumou maconha e disse que estava normal, normal, normal... Vendo uma ruma de jacaré e achando que um deles estava comendo o pé dele, a mulher perguntando qual e ele dizendo que não sabia, já que jaca e jacaré é tudo igual.
A essa altura eu recordei aos comparsas, digo, aos companheiros que justamente a injustiçada maconha, por exemplo, é “natural”, portanto “usual e comum”, de acordo com a segunda definição de “normal”. Eles riram, mangando de mim, eu fiquei emburrado, que eu não sou burro, e só não enrolei unzinho porque estava sem seda e sem erva, eras! Também, muito embora agora quase não role da solta, o conversa, esta rolava solta até o Poeta de Meia-Tigela e o Carlos Nóbrega lembrarem e falarem ao mesmo tempo a mesma coisa que nem no livro deles “acidade” em que eles escrevem juntinhos e nós outros aproveitamos pra fazer “humrum” e dizer em coro “já entendi”...
 Certo é que a primeira página se foi, a segunda está acabando e eu com medo de perder as poucas leitoras e leitores que normalmente não têm paciência pra ler coisa comprida, saquei a definição 3: “sem defeitos ou problemas físicos ou mentais”. Eles responderam: “Iiiiiirrrriiiii!” Eu não entendi, mas o Vaz me esclareceu com aquele tom cavalheiresco e didático dele que, como eu faço o programa Todos os Sentidos na Rádio Universitária FM 107,9 ao vivo às quartas às 14 horas levando ao ar a voz das pessoas com deficiência, não fazia sentido nenhum citar essa definição. Mas divulgar o programa pode!
Eu me defendi dizendo que só citara, se aquela gente se excitara, era por conta da garçonete e pedimos a primeira saideira. O Poeta DMT... deu mais tempo...  Escutou calado. Foi a vez do Vaz erguer um brinde. Eu já estava ficando bonzinho, bonzinho. Não normal. Fazia um 4 e um 44. Tigela resolveu de novo meter a colher no caldeirão da conversa falando de filosofia. Todos se olharam em silêncio e fizemos uma reverência ao final. Ele se encabulou tanto que se enganou e bebeu meu copo de cerveja. Todo. Eu não achei aquilo aceitável e comum.
“É isso!” – disse o Sal apimentando o colóquio colocando textualmente: “normal: cujo comportamento é considerado aceitável e comum”. E acrescentou solene e pausadamente: “(diz-se de pessoa)”. Jorge riu à beça, ninguém entendeu direito por quê. Salvo a leitora, o leitor que normalmente, ops, comumente, não, frequentemente espera um final decente. Que nada! A gente pediu a conta, foi saindo de fininho e deu um xexo no Pedro que ficou falando com a garçonete sobre os valores do inimigo – e dos amigos.
Sabe como é nosso lema, ou melhor, um deles: Somos absolutamente a favor de tudo que for contra. E mais! Somos absurdamente contra tudo que for só de favor. “Quem conta um conto aumenta um ponto” e não acerta as contas. De minha parte, fiz Letras pra não ver mais números e assumi minha discalculia. Não sei fazer contas, mas sei fazer poesia.

Henrique Sérgio Beltrão de Castro

quarta-feira, 24 de maio de 2017

"José Albano: versos de 1906", de Sânzio de Azevedo para o jornal O POVO


Sânzio de Azevedo

Doutor em Letras pela UFRJ e
membro da Academia Cearense de Letras

sanziodeazevedo@gmail.com

Rodrigo Marques, meu amigo e professor da Uece em Quixadá, presenteou-me com um exemplar do Almanaque Brasileiro Garnier de 1908, sob a direção de João Ribeiro. Sabendo-me estudioso da literatura cearense, a razão do presente é o fato de nesse livro haver umas “Redondilhas de José d’Abreu Albano”. Como esta “Esparsa”: “Há no meu peito uma porta / A bater continuamente, / Onde a esperança jaz morta/ E o coração jaz doente; / Em toda parte em que eu ando, / Oiço este murmúrio infindo:  / São as tristezas entrando /   E as alegrias saindo.”
Possuo três opúsculos sob o título geral Rimas de José Albano, editados em 1912, em Barcelona, Espanha, nas oficinas de Fidel Giró. Num deles, Redondilhas, esta “Esparsa” traz no verso 4º “coraçam” e, no penúltimo, “sam”, em vez de “são”. Houve quem achasse que o poeta queria salientar o caráter arcaico do poema.  Mas na Antologia Poética publicada em Fortaleza, em 1918, deixaram de aparecer essas formas, o que me levou a concluir que se tratava de recurso para contornar o problema tipográfico de não haver na Espanha o til sobre vogais.
Os outros opúsculos são Alegoria e Cançam a Camoens e Ode à língua portuguesa. Note-se que o nome de Camões está grafado à maneira espanhola.
O menos desconhecido texto de Albano é o soneto que se inicia assim: “Poeta fui e do áspero destino / Senti bem cedo a mão pesada e dura. / Conheci mais tristeza que ventura / E sempre andei errante e peregrino.” Manuel Bandeira, que em 1948 organizou as Rimas de José Albano, disse que esse soneto “nos soa em verdade como um soneto póstumo de Camões”. Prefiro ficar com Braga Montenegro, que escreveu: “assim como Camões imitando Petrarca redigiria o soneto camoniano, José Albano imitando Camões comporia o soneto à própria maneira”.
Desconsiderando os fracos poemas nos jornais de Fortaleza em 1901, creio que essas redondilhas do almanaque presenteado por Rodrigues Marques são os primeiros poemas de Albano publicados no Rio de Janeiro.
Mesmo escrevendo no século XX à maneira quinhentista, José Albano (1882-1923) foi considerado por Manuel Bandeira “um altíssimo poeta”. E o grande Manuel Bandeira era um vanguardista.     


sábado, 13 de maio de 2017

"Mãe de Coração", de Raymundo Netto para O POVO


Para Cleide e Sabrina

Li ontem, estampada em camisa escolar comemorativa do dia das mães: “Mãe, o amor que se expressa por meio do dom de GERAR a vida!” Logo que a vi, pensei: “Fazer” filhos é a coisa mais fácil do mundo, até por ser, na maioria dos casos, frutos de um instante prazeroso. Gestá-los, todavia, não é tão simples – como não sou mulher, não correrei o risco de avançar nesse tópico –, mas, dependendo dos fatores de entorno, qualquer complicação, mesmo às de acentuado grau, quando diante desse significante acontecimento, pode ser completa e absolutamente irrelevante.
Cientes, aqui, que nenhuma mulher tem a obrigação de ser mãe para ser plena ou realizada. Aliás, seria um grande favor às futuras gerações que algumas reconhecessem a sua inabilidade, inaptidão ou consciente malquerer ao exercício, em vez de ouvir ao clamor da opressora e inconsequente práxis social.
Algumas mães, entretanto, ou nunca experienciaram esse momento gestacional ou mesmo que o tenham vivido, sobra-lhes ainda amor suficiente para dividir com outro(a) filho(a), sendo este “de coração”. Sim, “mães de coração”, como são comumente denominadas as mães adotivas, aquelas que ousam crer ser possível uma história de AMOR superar a de abandono de berço.
Atualmente, no Brasil, existem cerca de 37 mil crianças distribuídas em unidades de acolhimento institucional – antigos “abrigos” –, mas apenas 7 mil são consideradas aptas a serem adotadas. Entre as 30 mil, algumas ainda têm vínculo com a família biológica – mesmo que não afetivo – e outras aguardam a tardíssima Justiça na conclusão da destituição do poder familiar, processo este que, por lei, deveria durar até 120 dias, mas que, na “vida real”, muitas vezes chega a 5 anos. Dá para imaginar o imenso prejuízo que essa lentidão traz para a vida de uma criança?
Por outro lado, o número de famílias habilitadas para adoção é bem superior: 36 mil. Daí a dúvida: se temos 7 mil crianças querendo ser adotadas e 36 mil famílias querendo adotar, por que ainda encontramos crianças esperando nessa fila? Desconsiderando a questão dos trâmites legais, entre as respostas, a mais comum: cerca de 70 a 80% desses pais preferem crianças – geralmente meninas – brancas, com, no máximo, 3 a 5 anos – quando a maioria tem entre 6 e 17 anos –, e que não tenham problemas de saúde nem irmão(s) – cerca de 36% das crianças habilitadas têm irmãos também inscritos no Cadastro Nacional de Adoção.
A “gestação” da mãe de coração, para quem não vive essa realidade, não é nada fácil, correspondente a um fórceps legal – a parteira, no caso, é a assistente social; e a sentença de habilitação, o parto.
A princípio, caberia ao leitor sentir na pele empática a história muitas vezes marcada por frustradas tentativas convencionais ou não e/ou mesmo por experiências de luto. Depois, transcender aos preconceitos, ao inesperado julgamento familiar – às vezes, familiares não entendem e a recriminam –, à(s) culpa(s), possíveis fragilidades e ao exercício de paciência e resignação diante das visitas e despedidas dolorosas, da coleta documental, de infindáveis entrevistas e a perda do irrecuperável tempo.
Contudo, o mais importante é o reencontro, o momento único de definitivo amparo, acolhida e de aceitação um do outro, ação movida pelo amor, independentemente da forma como este lhe chega e que, portanto, não há menor diferença, pois adoção nada tem a ver com caridade e nenhuma dessas maternidades é menor do que as biológicas, já que o amor que nasce desse coração não se limita aos esboços do sangue nem ao umbigo.
Neste Dia das Mães, preferia ter lido: “Mãe, o amor que se expressa por meio do dom de APOSTAR na vida!” Nossas vidas e vivas às mães e filhos do coração.


segunda-feira, 1 de maio de 2017

"Fotografia 3 x 4", de Raymundo Netto em "Para Belchior com Amor", org. Ricardo Kelmer, ed. Miragem


Publicado originalmente em Para Belchior com Amor, organizado por Ricardo Kelmer.

Quanto amei ou deixei de amar,
é a mesma saudade em mim.
Fernando Pessoa

“Sobral?”, riu-se. “E existe isso?”
“Existe, seu guarda. E não é só no Norte, não, viu? Na Europa também. O senhor já deve ter estado por lá, claro.”
O policial que, tirando a farda e a arrogância, não era muito diferente daquele moço encantado, de cabelos ventaneados, basto bigode e surrado pela cidade grande, percebeu a mangação, lhe devolveu o documento e advertiu:
“Tome juízo, rapaz. Assim como você, tem muitos aqui no xilindró.”
Não era mentira. Sozinho, tarde da noite, numa esquina deserta da Lapa, sem dinheiro no bolso e com perversa juventude sobrando no peito, caminhava no descompromisso do tempo para a praça Mauá, ou na direção de onde nasce o Sol, esperando a noite passar – aprendera com a noite fria a amar mais o seu dia, assim como pela dor o poder da alegria – ao encontro de um camarada, como ele, a morar na filosofia (leia-se “na rua”), sustentando-se da venda de cachorros-quentes e refrigerantes na av. Atlântica.
Levando o violão debaixo do braço, arranhando um acorde aqui e acolá, arrastava-se aquele moço de tantas tristezas pelo abismo e pelas vertigens de sombras do abandono de sobrados inda em sacadas de ferro, cruzando com taxistas nas calçadas a discutir o futebol, com amantes em bancos apertados e abraços espaçosos, com damas noturnas de mãos nos quartos, ilustradas apenas por tímidos lampiões em seu tempo negro: “É, sir Newton já sabia: o que pesa no Norte, pela lei da gravidade, desce para o Sul grande cidade...”
Sentou-se num degrau de escadaria e retirou a cansada alpercata, comprimindo calos de léguas tiranas, enquanto observava à frente o burburinho nos bares e inferninhos, revelando a cinzenta alegria da solidão carioca.
Ali, desapontado e desnorteado (sem o Norte), saudoso de casa, de afetos, dos quintais, da rede branca, da mulher que amou e que não pôde, ainda bem, lhe seguir, cantarolava num dedilhado baixinho: “Nam... na, na, na, na, na, na, nam... nam, nam...”
Enfadado e ferido às costas pelo peso das escolhas, tirou do bolso um livrinho, quase sua oração, onde se lia: “A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.” Enchia os olhos de lágrimas, fortes como um segredo e verdes como o doce da cana, e, num poço qualquer de seu coração selvagem e repleto de dias de ironias, lhe saltava a certeza de que, como “a eterna novidade do mundo”, tinha coisas novas, coisas novas para dizer.
Levantou-se e meteu o pé na estrada de não poder parar mais – na cabeça canções de rádio e de discos –, a curtir o teimoso violão, aceso pelo cigarro, livre pelas palavras, sonhos e sons, sem regras nem reverências, lembrando-se de um tempo de cantoria em feira e o desejo de esquecer o que lhe era antigo, deixadas as suas mágoas todas naquelas águas fundas e distantes dos verdes-marinhos mucuripes: “Mesmo vivendo assim, não me esqueci de amar/ Que o homem é pra mulher e o coração pra gente dar”.
A madrugadinha já despertava os primeiros cantares de galos de sua memória sertaneja. Veio-lhe com ela um trecho de carta a um colega – “Veloso, o Sol não é tão bonito pra quem vem do Norte e vai viver na rua” –, quando deparou-se com o olhar desconfiado de outro policial na curva do caminho, cumprindo o seu duro dever: “Por gentileza, seus documentos.”
O poeta repetiu o mesmo gesto de todas as vezes e de todas as noites, retirando o registro do bolso traseiro de seu blue jeans e lhe entregando, enquanto trastejava um dedo de violão: “Eu sou como você, eu sou como você, eu sou como você...”
“Sobral?”, estranhou.
“Sim, senhor. Mas Sobral do Ceará. Soy latino-americano.”
“Carlos Gomes? O músico famoso, é?”, gargalhou, estalando o indicador na fotografia mal impressa.
“Sim, Carlos Gomes Belchior. Mas pode me chamar de Belchior, também músico, ainda não famoso. Mas vamos logo, seu guarda, que o Sol está nascendo e eu não tenho nada, nadinha, a não ser uma puta pressa de viver!”

“Amar e mudar as coisas”

Belchior finalmente voltou (1946-2017)